Ângelo O Ochôa
livro de horas - opera omnia
os 916 poemas
I) os 363
poemas
*1 Poema um:
Ruir o interior dos ouvidos
- tabiques - areia - cal - sons esquecidos.
Pedras sobre pedras - os
dias asfixia - as palavras iguais sob o ruído.
Abismo das folhas - Março
ou Abril - o Jardim Botânico.
Todo o peso do rosto nas
costas das mãos.
Rombos sombra - o retrato
repete a abrupteza.
Velas - borrões - gente -
quatro quilómetros pela barra.
Do mundo dos meses - telhas
- papoilas - grades - tenazes.
Telhas - côncavas -
convexas - convexas - côncavas.
Vertigem de fontes
desmemoriadas - tudo - súbito.
A raiz dos ouvidos -
árvores - ontem - candeeiros - sinos.
Exaustão - urzes onde os
nervos verdes.
Uma vez, um olhar - jogo água
- as cordas febris - o violino.
Tijolos - estores - redes -
andares de casas - espaço escuro ante a parede branca.
Aereza - torpor surdo no
cérebro - um ruído de sílabas dentro de mim.
Triângulos - trapézios -
Mozart. Montes - lamas - dorsos - dromedários. Azuis tons - Klee - the
musician!
Estes versos torpes -
malmequeres - muros - vento - mudez.
O coração bater num cubo
fechado - corredores sob corredores dor.
Horas trevas - objectos
limites - descenso dos sons num poço sem fundo - três vezes z cinzento.
Luzes facetando-se - um
clown, que anda, incólume, num arame cortante - quase nada - infinitamente.
Os dias seguidos - agudezas
- dedos - losangos - vidros.
Crueza - grãos de poeira -
partículas de caspa - caracteres tipográficos.
O soalho - agulhas - sons
opacos - os nomes, das pessoas conhecidas nas paredes.
Os nós dos ossos dos dedos
- o peso dos ombros.
Roseiras - barro - garagens
- ouvidos ar.
Os cabelos soltos - a nuca
- nunca - sim - hoje.
Verde a relva, verde a
relva, verde. I know your name - your name is Is - I know. You know I know.
Os ferros - os muros - eu
sei - não sei - onde as horas lembradas - e deslumbradas - de ti.
De átomos, átomos - de
constelações, constelações.
Obsessão dos sons - os cotovelos
roendo-se nas janelas.
A manhã - a cidade - larga,
a avenida. O telhado - da chaminé a cal - o beiral de lata - a lonjura branca -
a gelosia.
O ângulo da mesa - o azul
e... Flamingos - lagos - voos. Cortinas - dedos - unhas. Pouco a pouco o poema
trabalho.
Braços - tijolos - redes -
mínimas gotículas - de uma criança o sono - de uma criança a fala.
Estradas - bicicletas -
letras. Tectos - estantes - portas. Carris - lápis - estrela... Escusado dizer
noite.
Na areia o sol por entre os
ramos d'ar.
Escadas - chuva - resto de
rio que vi. Autocarros - carros - carros. As mãos - o alcatrão - um operário.
O corpo - a sombra - um
cigarro. Blocos - tábuas - inexistência. Ponte - longe, perto vultos - areal.
As palavras que faltavam -
as palavras que faltavam: Maria - Manuel - Deus connosco.
Rapariga - rosto - olhar -
de uma vez para sempre.
Cândido Portinari, Cândido
- duma cor doutra - uma cor noutra - neutra.
Ouvi meu canto - ouvi meu
canto - ouvi.
Irrepetidos voos - um
número indefinido de versos desiguais.
Canaviais - juncos - vento
- vimes. Òòa - aòr - o terraço. Esguios choupos no ar nublado.
A instantes existo e o azul
- a terra barrenta além - a pele. O poema trabalho sob estrelas.
Restolho - fragas -
estevas. O vasto negrume da extensa noite. Os aéreos, suspensos lapsos.
Ausência - montes - o poema
quarto. Os sapatos - os óculos - os anjos.
Um naco suado de pão. Amen!
O tempo - de Deus o tempo. Esse tempo - este tempo. Kz-kv-z! Oh!
-
*2 Porque vivemos, os
emparedados, sem árvores:
Emparedados ou localizados,
aquém nós mesmos,
que, mesmo que supostos
transpostos, nos detemos os passos,
deparando acaso com
inúmeras, 'scuras portas no labiríntico caos.
-
*3 Seguindo o casario,
qual lençol o rio, à
distância. The white clown Miró. Composição inintitulada,
em Março de 1966. Ferraz -
vazio de luz - MA JOIE! Jazz - surdez-mudez - Bach.
Os adjectivos
desnecessários, escusos, aborrecidos.
Ora a cidade raramente
igual. As pessoas voltadas dos empregos.
Sob este toldo, entre
cadeiras, mesas, imaginadas faces, estou.
-
*4 Donde me ocorre
aquele R:
Os dias repetidos,
abismados. Os fios dos eléctricos cintilam.
-
*5 Gotas de água nos
vidros fixas.
Plúmbeo, a vermelho raiado,
o céu. Braços de árvores - estores descidos -
semblantes escondidos sob
chapéus de chuva abertos. Prédios ruídos - cores cinza - gabardinas.
-
*6 Se tudo ruiu,
ficou a existência aí,
inconsequente.
É meio dia. Não é meio dia.
O ponto nulo z:
Os olhos vesgos, da
oculteza.
-
*7 Repetidamente,
da paragem do carro
eléctrico a imagem mesma devassada, sonho nada.
Dum recanto da cidade sem
garganta.
-
*8 Brancor
de intermédios de escadas.
O espaço aberto para o céu. E eu.
-
*9 O mundo tumultuoso do
sangue -
vibração luz - corda
'sfiada ao ar - subterrâneas criptas, entre sombra e trevas -
janelas por entre chapadas
de sol - no longínquo casario, pétreo e nebuloso.
-
*10 De Madame Maar
os olhos tortos
esgotando-se. Sons prolongando-se ao redor do R, ao redor do R, ao redor.
Olhos navalhas, vidros
espelhos, cimento, tubos, covas, sonhos, vultos, distorções.
Um rosto maior do que um
livro. Opacidade. Qualquer torneira ininterrupta.
-
*11 Goivos intactos de
terra.
O desejo de inevitavelmente
cantar.
Tudo a noite morre funda
morte. Certa e indizível.
-
*12 Alberto Caeiro:
O espanto primitivo do existir
e do dizer - do coração desalado.
-
*13 A contemplação
aborrecida:
P'lo tempo revolvido quase
docemente, no olvido de ser-se só,
sem sentido para os dias
imediatos, fundos, contarei, uma por uma, p'los teus dedos, as loucuras
possíveis, os enredos. P'los
teus dedos, sim, p'los teus dedos lã. Aí ficaremos os dois, os sons,
os ossos. Em arco
abrir-se-nos-ão os braços até à catedral da branca areia.
-
*14 O vão da porta,
inumerável, amor -
de ver-te, é terna a
claridade - deves calcular, este domingo -
de mais a mais, as alegrias
ar. Ver-te é ter a certeza da vida, esperar-te
perseguir a esperança
possível. Vês? As palavras correndo para ti.
-
*15 Quadrados de quadrados -
le Printemps viendra - a a ah - le ritme des doigts, des doigts, des doigts
-
micro-microcosmo - abrir de
vidraças a a chuva - ar aberto a o ar - e stelle e stelle.
-
*16 Ah, teu devastado
olhar
fixa um demorado mar,
revolto o vento.
-
*17 Brancura de pétalas
-
ternura de um corpo casto -
os jogos de infinito.
Ou borboletas tontas ou janelas.
-
*18 Teia de aranha na
parede esburacada:
Música de um canto simples
de desperdícios:
Uma aldeia em
Trás-os-Montes: A harmonia de Deus:
Um chão terra cimentado
p'la noite fora de um dia de apanha de amêndoa: As bicicletas não andam:
A humildade é um verme
familiar: À cerveja, à fadiga, rapazes companheiros inventamos viagens.
-
*19 Sombra intocada
num papel sem nada, a
poesia - as bermas à luz falsa - as costelas partidas
- a publicação a 7 cores -
a cegueira enternecida - um certo sorriso às primeiras horas
da manhã, anteontem,
alarmante.
-
*20 Do subterrâneo das
horas,
máscaras rebentam, às ruas,
às mil.
Que não posso vê-las.
Que não posso vê-las.
Que não posso deixar de as
ver.
-
*21 Nem o abandono
inútil,
os pés adormecidos ao peso,
a desolação imensamente plana,
a apatia sem nenhuma saída,
o travesseiro dos bons dias muito obrigados,
os dedos na queda dos
indescontínuos 'nstantes, os tectos para o pavor, as tensões dos nervos
às alucinações disformes.
Porque as crianças não têm culpa de entrementes
começarem a cabecear tontas
de sono.
-
*22 Os palhaços aos tombos,
aos empurrões - gente con el corazón en la cabeza.
A periferia dos tubos e um
peixe - os círculos fechados - a trama do cristal:
Ernst ou Kandinsky - as pétalas
das chamas. Léger, ou a maquinaria humana:
E o que justamente se quer
por esse só momento
entre o abrir e o fechar da
porta de casa do proletário anónimo.
-
*23 Para a mulher povo
de que não há notícia
queria uma canção com as
mãos dadas - para a mulher povo de que não há notícia.
Quem me trouxe a uma esfera
de planetas azedeza?
Deixassem-me ignorante,
saberia uma canção. Sem nome uma canção, com braços, enxadas e arados em riste.
-
*24 Trouxeste uma
alegria -
procurarei, procurarei -
dize-me quando vais para cima
- tenho aulas e tenho de -
amor - vê se será melhor 14 ou 21 - mas telefona antes.
-
*25 Legrand ou
Cherburgo -
os chapéus de chuva ou os
passeios -
os citroën dois cavalos ou
rever-te à ternura amanhecida - dos despertares desassombrados.
-
*26 Outro tempo
dormia até mais não.
Moía-me. A ponto de as ruas ficarem a uma distância de impossíveis.
-
*27 Acontece-me
ficar sentado a tarde toda,
a repetir os gestos gastos desde as horas.
-
*28 Páscoa do morrer
dormindo.
Ecoa o vazio íntimo das grandes
casas: A morte em flores.
-
*29 Sons abrem janelas.
Soltam-se libérrimas as
palavras, um tudo nada próximas do fim.
-
*30 Ainda aí, um grito
estrito e um bocejo.
A contenção do escrito. Da
guitarra gemidos e murmúrios
entrecortando o aclarar nítido.
Um coração leve. De l'eau.
-
*31 A palavra continua,
porque há um afazer
inadiável: Adormecer sem repulsa, esquecer paredes:
Ou fazer por isso. Tudo
rescrevo na noite dentro do sono. Morar é bom.
-
*32 A mulher poema:
Levei toda a manhã a sonhar
com a tua viagem. Tu és pura e bela. Tão bela és tu, poema.
-
*33 Canção ao redor da
vogal O:
Dorme sereno no plano fundo
do lago o sono brando do Outono o abandono.
-
*34 Intacta, a manhã
cansada de elegia. Um outro
verso, à volta do mesmo.
-
*35 Brancas, ferocíssimas
muralhas.
Dissipa-se em novelo o que
em vão pensar.
-
*36 Perdeu o nome a
existência,
disco rolando do
incansável. De uma aguarela do Mendão:
A praia - de muita, muita
areia - em ébria, plena insolação.
-
*37 Devagar, não dar por
mim.
Enquanto amanhece
cruamente.
-
*38 O dia perde-se
de indiferença.
Serenamente, esqueço-me.
Das nuvens flocos brancos
desvanecendo-se num céu escuro.
-
*39 Ainda a cor marinha,
arenosa,
o alvorecer sem motivos,
árvores isoladas inquietando.
Os dias esbarrados, em
desvario. Interrogar-se desde quando a paisagem em ruínas,
dor de corpos, uns contra
outros pró meio da rua atirados: Que d'espoir de rages, notre vie!
-
*40 Digo-te sem ver
a noite dos dias - crianças
- terraços - a espaços, buzinas - de brandura envolvente.
-
*41 Tarde nua no jardim:
Folhas de árvores aéreas,
amarelas de transparência, agitando-se soltas,
tenras, em leve ballet de
frémitos de invisível. Dum súbito corpo a presença, espessamente.
-
*42 É tua a praça,
toma-a, Senhor. Lá, onde
morrem os poetas, com as mãos a arder.
-
*43 Alegria de amar:
Os noivos, na madrugada,
deitaram fora os poemas.
Tinham resolvido o amor e
as janelas rasgadas. Resolveram,
pronto, decididamente
resolveram. Os olhos ventoinhas denunciam a terra.
Não faz bem às pessoas
certas ver da nudez da terra. Haveriam de se amar.
Porque não morderiam as
bocas de todos os dias?
Encontraram-se, a primeira
vez, sós num espaço.
-
*44 Eu, na rua B.
Sequeira,
secadeira, da cidade de Braga
de Fevereiro, estendidinho à solapa do meio-dia, a dormitar,
a secar e a ressecar até à
medula dos ossos do esquisito cadáver. Vêm e dependuram-me,
de cabeça para baixo, do
olmo mais alto. (Isto era na minha terra.) Nada a fazer, minha rica.
Vê, amor, a raiz suja, do
pêlo arrancado.
-
*45 O ser é todo ser,
queda, imobilidade deste
dia, que anoitece a cor apagada.
-
*46 Procura pela
linguagem pura,
pelo Vietname que
respiramos, pelas palavras precisas,
as palavras que amo. Estão
pra lá das coisas e das palavras que amo.
-
*47 De estar amanhecendo
um novo dia,
esbatido desde onde, sobre
o rio, surpreendido vou.
-
*48 Resfriarem folhas
trémulas.
Fugir o largo a conversas
ciciadas. Teu lugar.
-
*49 Na cidade fechada,
o olhar a roer a dureza
duma flor.
Darmo-nos ou não, palavra a
palavra, a palavra que és, correr de ar.
-
*50 Anne Frank:
Falavas a sorrir a teu
amigo da verdade em sonho,
límpida e desejada. De
dentro do teu sorriso de amargura.
-
*51 À pas lourds venue,
mémoire changeant, lune, une claire poussière t'apporte à moi.
Dizes, não sei, meu nome de
baptismo. As braçadas de flores que me deixas!
-
*52 Des yeux tendres le Dimanche,
étoile. Tanque de lavar.
Mas onde ou quando a
serenidade de sossegar bem a teu lado?
-
*53 Restolho -
fragas - estevas - a noite
extensa. Os etéreos intervalos.
Carreiros - zirros - junços
- vides - fragaredos. Ausência - serra - giestas - Bornes. Ténue que é.
-
*54 Povoações em milagre
surgidas,
salas habitadas de
infância, velhas veredas,
amigas e patéticas
paisagens, nuvens de estrelas.
Acendem-se fogueiras! Tudo
dentro pesando.
-
*55 Verdes anos:
Nem sei bem o que era:
Ver ver e ver, sorrir,
dizer:
Aí éramos nós.
Da verdadeira festa lembram
sons.
-
*56 Desperta,
rompe-me, em flor de neve,
vinho, pão, os olhos, minha terra.
-
*57 Manhã de um pároco:
A aldeia em pensamento: A
que distância, quase infinita, das casas mais próximas da sua!
Ah, mas entrecortando
angústia, a voz desperta. E é a rapariguinha,
o prado adiante, de
eternidades e pedrinhas da calçada de infância a te chamar.
-
*58 Vou a um outro dia,
com pernas para a frescura
de andar nas palavras e digerir amargura.
De vaguear por fora, tão
longe do meu canto, esqueci, de há muito, a humilhação do poeta.
Diluí-me, em abraço, no povo,
mais que na letra. Por isso me evado do que me nega.
Vou dizer natal, que é
quase dia, esquecer-me de soletrar a poesia.
Ser da raiz da árvore, da
raiz do dia.
-
*59 Nome é dizer mar,
é dizer ar, e nomear: Dizer
estar, e estar em toda a parte e aqui,
no início, no fim, no meio
e na palavra: Do que, enfim, abrirá um fruto, não já amargurado,
mas maduro, um fruto
completo de verdade, forte de silêncio: Porque o trânsito aumenta de hora a
hora.
-
*60 Agora é um tempo de
anunciação,
um tempo de construção, de
um ai de alegria ou paz.
É ter achado da amargura
repetida o princípio: E sei teu outro novo nome: Mãe-Árvore-Luz.
-
*61 A cada instante
dizer
palavras da palavra. Tudo o
anjo encaminha com firmeza.
-
*62 Pedra de tropeço que
és,
com fáceis razões de esquecimento
na alma dentro,
tens por certo forma de Te
fazeres ver, pois tens morada no íntimo mais íntimo de cada um.
Aí o homem não destrói o
irmão do homem. Desfigurará quando muito a própria face.
-
*63 Vou estando aqui
historiando, apanhado p'lo
afazer obscuro. (É o serviço de cada.)
Outro que não eu, de longe,
do trabalho, devolverá da antiga força a novo povo.
-
*64 Cidade de teu cais,
tuas luzes, tuas ruas, teus
jardins e largos, onde descansam olhos, em tua claridade nítida para o tudo
de pequenos nadas, tais
como fumo, café, que, com a água, nos intervalam caminhadas, pesos, lutas
e surpresas. Para lutar, há
não só tuas praças, tuas escolas, recintos ou fábricas, tuas casas plenas de
memória.
Há uma vontade grande de
ver teu corpo limpo, tuas crianças pisando-te despreocupadas.
Teus operários erguendo não
já o que sobre eles pese. Em ti a reconstrução dos dias é possível,
para o arame do equilíbrio
inteiro. É em teus olhos de ar, cidade de todas as cidades,
que voa o diáfano das
roupas estendidas, outras, altas, tremulantes flâmulas que sol e vento enxugam.
-
*65 Meu lugar onde,
de dor, amor, espanto e
paz, trabalho e refúgio, milénios de novidade.
Eis-me em ti dentro, ó
Cidade!
-
*66 Plantas dos pés
assentes sobre este pedaço de terra,
paisagem dum sonho pacífico
doutra esfera, os olhos desenham-me a cor a imagem sem guerra,
que dentro de um O se
envolve e encerra. Chão de carpete ou de azulejo?
Chão destes dias, fechados
aos trajectos ínvios do desejo. Chão de estar inteiro e nu,
suspenso da escrita
possível do anseio ou voo, do que a morte trará pra lá de mim. Aqui medito a
condição
humana, da estatura: Terra
forçosamente dura. Um som através desenha-me aos ouvidos o exacto, breve
cenário
da ilusão da vida: Estar
desperto e sonhar a música em fundo de me revelar. Despeço-me: Vou viajar ao
lado de lá,
onde terei pátria
verdadeira. Deixo-vos meu recado: Nação estrangeira, pacífico bocado tive, que
em ti vivi.
Vou à outra margem, ao que
a morte dá. Um nome de baptismo em si e a si se diz. Mas não: Aqui me deixo
estar:
Que não são horas de
deslumbres de devaneios. Horas são tão só de cães, gatos e automóveis.
No nocturno negrume, que de
morte me cobre. Do fundo do coração minha memória sobre.
-
*67 Parábola:
Emérito mui digno, Monsieur
Albeniz foi empurrado por um bandido, à Paris.
Vi o filme das suas mãos,
pombas que voavam: Paz, irmãos! Quase que o matavam.
Falava com as mãos, pombas
que voavam: Solidariedade, irmãos! E os insultos gelavam.
Era um colóquio importante
para Monsieur Albeniz, que estava no pleno uso da palavra, à Paris.
Logo interrompido, e
inquietado, o certo porém é que Monsieur Albeniz falou, e bem, de paz e bem, à
Paris.
-
*68 Embarco neste cais,
que aqui me tem.
Em quieto voo, lanço o olhar
longe ao mais perto. Repito o lugar, ou o destino.
Exílio em casa: Aqui fico,
viajo, voo, fujo. Exílio em pátria: O post mortem me liberte.
-
*69 Os alados anjos:
Despertos nas antemanhãs,
lembram a paz, a calamidade, a dor ou a redenção?
Lêem o livro interminável.
Mil e uma vezes lêem, e relêem, para lá do escrito.
Porque lhes apraz, estão de
pé. Gostam das espadas, que contudo apontam o solo. Amam cada criança,
que docemente ferem da
simples força que lhes vem do fundo coração. Têm quase sempre os braços
abertos.
-
*70 Aqui retomo o
recomeço
do ciclo das aves, que sou.
Emigro e fico a um tempo, onde enredado 'stou.
-
*71 Será que, longe, os
anjos
realmente pisam da alta
serra o terroso campo do pão, levemente fluindo do vento, que, leve, brando
sopra?
Se o pisam, é assim como se
voassem, com sua espécie de corpo, todo ar e água. Constam de fogo
de asas, ligeira brisa,
ideia, sonho ou âmago que estremece em sua aérea leveza? Nos velando,
incansáveis e solícitos, do
nosso vão dormir, como se perpassassem vagaroso livro, os subtis enredos
desenrolam.
-
*72 Sono lento guia teu
sonho,
vivo de despertares
extasiados. De aladas presenças tutelares sobre tuas pálpebras.
Com saliva e pão de te
conheceres. Eis recomeça teu enlevo de estar, ciente do lugar onde estás.
Cá, não fora, ou noutro
lado. Cisnes deslizam desmaios de agonias doces ou d'indefinidamente
prolongadas orações.
-
*73 Lua, o claro pó
te traz a mim dentro da
seiva, ó quase mãe.
-
*74 Frémito de folhas,
tremulantes em círculos de vento.
Que esperas ainda? Lança-te à rua. Faz-se café. Crianças gritam, do longe.
Árvores magras renovam-se
na perspectiva de quem passa. Freme a folhagem, sobre a borda, a margem
junto à ponte. Há uma
circulação imensa de pneus. Flores coloram das bermas dos carreiros a
amplíssima
extensão. Nos passeios dos
jardins, risos e vozes. Passam uns trabalhadores, com suas calças azuis,
suas camisas garridas. E
umas moças, em suas batas, enfermeiras ou colegiais. Algazarra de cores e
arruído,
tingida da alegria da
esperança. Outro dia. Que esperas ainda? Faz voz do teu riso, riso da tua voz.
É tempo de despertares do
novo amanhecer. Não sentes vagaroso o secreto apelo? Desafogueia-te, anda.
Há jornais, livros,
gravuras, pessoas, pão, palavras. Sim, mas desce à rua, à vida. Não guardes
nada nos bolsos.
Deixa teus braços livres
para a lonjura. Vá, estende a mão a esse teu igual que passa.
-
*75 Já as cegonhas se
postavam em seus ninhos, por sobre os olmos.
Enquanto as águias
planavam, a plena altura. Findava a Primavera.
Concluídas as aulas,
comboios regurgitavam dos que regressavam a férias.
Motociclos dobravam
esquinas. Uma espécie de felicidade espreitava dentre os choupos. Os galhos das
nespereiras
agitavam-se raiando à
aragem fria. Ainda havia muito a que meter mão. Amanheceria de vez o sol do
novo dia?
E então? Acordarias?
Erguer-te-ias da sombra do teu quarto? Darias os passos necessários?
Havia algo de irrepetível:
O nu tempo último. Fosse o que fosse:
Ou já a voz ou paz de um
grande, grande Deus, no coração da criação.
-
*76 O olmo da frondosa
copa,
prantado lá para o fundo do
jardim público, lá para as bandas do coreto,
das multidões ruidosas dos
pássaros. Com fisgas de elásticas borrachas de câmaras de ar
calhaus lhes arremetíamos.
-
*77 Os melhores damascos
do mundo
davam para nós, dos limites
do quintal do João de Campos. Do muro os alcançávamos.
Tempo dos primeiros beijos
furtivos das risonhas e coradas raparigas. Do primeiro vinho
da doce juventude. Da
grafonola, do outro lado da rua, Amália cantava repetindo o barco negro.
No Sporting, por esse
tempo, jogavam avançados os cinco violinos.
-
*78 Amontoam-se os
livros, as caixas, os isqueiros.
Para a gaveta ficar
arrumada há que fechá-la. Calcetam-se pavimentos,
plantam-se árvores de flores
resplandecentes nos desertos do cimento. Ouve-se um ruído
de quem risca o ferro. Os
cafés às moscas. Passam autocarros, regularmente certos. Os estores caídos,
sobre
as largas janelas.
Computadores desligados. Camas vazias. De perto, soltam-se canções rock.
Professores e alunos,
em salas fechadas. Motos,
ruídos, cães e automóveis. Agressão, estranheza ou apaziguamento?
Se saísse, tombava
apavorado.
-
*79 As voltas que dê,
regresso a casa.
Onde diluo o afinco das
lides de Quixote. Cá, na trégua, as guitarras, as flautas ou os pianos
gemem murmúrios,
entardecendo-me sonhos a que volto. Ou o só silêncio repercute,
pacificador. Em meu
recanto. O canto de estar quieto. O canto possível de me revelar: Ao hall.
Na mesa, os incompletos
poemas, perpassados da mais 'stranha realidade.
-
*80 Outra tarde:
Rompe-se do silêncio o
manto do vão dos compartimentos.
Música longínqua, contudo
íntima, estala no interior, imo, timbre, fímbria de alma.
Regressa, inanemente, ao
ponto mais remoto do olvido.
-
*81 Retorno dum tema:
A hora nua, do jardim:
Gritos d'aves assolam das ramagens as copas,
de amarelidão de
transparências. Juntos, muitíssimos insectos em correria.
Desequilibra-se e cai o
regente de orquestra.
-
*82 Quanta calma evoca
em mim
o doce mel do teu olhar,
ó anjo azul da plena
adolescência!
-
*83 Está o homem à porta.
Vem de bem longe. E está à
porta. Tem cabelos brancos, à porta, o homem.
Cabelos brancos, rugas
'scavadas, testa alta. Está à porta. Traz paz o homem, o homem que está à
porta.
Vem cansado do trabalho, e
está à porta. Já andou demasiado o homem, demasiado.
E vem de bem longe, e está
à porta. Deixem-no a seu caminho: Muito pra lá de qualquer porta!
-
*84 Teu corpo trazido no
vento,
através do silêncio e do
abandono. A explosão das palavras que nos demos,
anoitecendo em nós a
vacuidade.
-
*85 Um sossego alheado
de cansaços vãos:
Escurecendo a cidade
exaustamente, sente-se um desejo instante de viver.
Nas árvores, nas ruas, nos
prédios desolados, arrefecem os olhos.
Enquanto se tornam maiores
as pedras.
-
*86 Os joelhos esmagados
-
zur za zur - azedou-me
Schubert as raízes das lâminas.
-
*87 Trepidar de rodas de
autocarros -
blocos casas - amargor
barro - rouco brum-brum em fundo. Rostos - rostos - rostos -
a secura da biblioteca. Munch:
Dos turvos, baços vidros a suja cor espessura.
-
*88 Sei do teu rosto e
nem sei.
Sei do teu corpo e nem sei.
Teu corpo fremindo. Teu rosto esplendendo. Uma vez te vi
e outra vez depois. E,
enfim, nem sei se te vi se me viste, se te fixei se me lembras.
-
*89 Caminhos, a que as
botas não descobrem o afago.
O mesmo sabor de amargura
nos é devassado. Entrementes, treres de baterias
treres e ques inúmeros
perturbando. Aqui, ali, silentes patamares, desvãos de prédios,
lajes, pedra mármore. Voos de
pairar: De eterno entranhados nos movemos: And the wind, ó Zay!
-
*90 Há muitas cores nos
jardins.
Mas onde é Marienbad? Trans
tempo espaço o ansiar-te
e isto de não ver-te aqui.
Olhos terra de querer-te: Por amar por amar!
-
*91 Vamos às fontes da
manhã,
companheira, vamos às
nascentes do sol. Mordi um dos teus cabelos.
Foi vento? Foi vento.
Dentro, na carruagem? Sim, porque a noite. Sim, porque a manhã.
Tarde ou cedo, éramos os
dois jovens quaisquer, e os carris precisamente.
Lembrando-te depois de depois,
p'los dias a prosseguirmos mais do que sós.
-
*92 O mar nos ouvidos,
durmo.
Se, entretanto, acordo...
-
*93 Brando ser,
calmo, poema pleno, a neve
e água, leve, à tona d'ar, leve corre e vai. Pra lá de monte e mar.
-
*94 Num sonho todo feito
de incerteza,
silêncio, luz branda,
amenidade, senti essa presença,
essa leveza, que nos
conduzem, 'inda aqui, à infinidade.
Era a alma das pombas, ou a
mesma da toalha na mesa, imensidade,
céu sem nuvem nem véu nem
sombra escura: A íntima e afável comunhão:
Contacto d'imo a imo, o só
refúgio na incerteza: Escorrer do tempo, entretenido, vão:
O segredo dum sorriso. E
assim descer de si a si, directo, até achar
a mão, que na mão ajuda a
caminhar.
-
*95 O meu coração mora
nas terras altas:
Fundos montes dormentes. A giesta
dobrando-se dúctil, na ventania, qual onda marinha.
Uma fonte na neve. Imensa,
a flor da urze. E castanheiros, de ouriços carregados.
Ondas de ondas de oceanos
d'extensos horizontes. A vastidão habita-se-me de numinosa distância.
-
*96 Levántante, y mira a
la montaña:
Aves e nuvens existem na
imensidade. Ora ar! Ora ar!
Exalçai-vos, vistas de meu
olhar!
-
*97 À janela fechada não
assomas.
Choram, ridículos, os
cómicos. Se os dedos entrecruzando-se, se a rezar.
-
*98 Passava através do
parque,
pensando apenas vê-la.
Depois, atravessava a ponte, com um rectângulo
negro ou branco, debaixo do
braço. Debruçava-se para onde corriam turvas águas.
Abismava-o a enormidade do
mundo.
-
*99 Turvo, nenhum,
torces, quebrantas, das
sílabas os sons. O suor ou o riso dizer. Aqui me tens.
Eu morra se não há árvores
magras no teu sonho: Ao a rua e a lua contigo tontas dormirem.
-
*100 Perdem-se, uns
depois doutros, os dias,
descendo a morte
indecifrada. Uma vaga saudade,
por vezes, fantasia coisas
intangíveis, sóis ou lá o quê,
longe, muito longe dos
momentos. Mas, ante a compacta escuridão, tudo parece emudecer.
A desolação da cidade!
Chove que chove sobre areia: E hoje eu, ainda.
-
*101 Dá trabalho ter a
casa em dia.
Até correr cada
compartimento, e achar cada coisa em seu lugar. Há sempre um papel a jogar
fora.
Vê que tua casa esteja em
ordem. Como a teu corpo cuida-a. Dá-lhe uma volta.
Cada vez que precise.
Longos anos a habites. Tenhas lá um recanto certo onde possas meditar.
Um cantinho teu. Livros, palavras,
sons para as horas mais longas.
A rádio e a televisão, a
fim de que o mundo se restabeleça, ao contacto fresco das paredes da paz.
Que a porta de entrada
continue aberta ao visitante amigo. Que o chão te dê a medida da solidez da
vida.
Fundaste, fundo e forte, a
própria casa. Reviverá da terna eternidade.
-
*102 Entretecido das
pequenas rotinas,
tais como barba, banho,
café, retomo o fio dos dias pesados do desvario da repetição:
O afazer igual consome-me.
Ocorre, de quando em vez, um entrecho de filme,
ou um excerto de teatro,
pra um ritual diferente de me refazer.
Regresso à leveza das horas
transparentes, do refúgio do equilíbrio firme. É água ou vento
que reencontro, num
itinerário a refazer aquando do repouso excessivo ou do evidente cansaço.
-
*103 Não esqueças
as estradas quietas da
praceta. Aí, teu poema, teu pouso, tua vida. A réstia de sombra.
Deixa-te estar. O todo do
mistério desvenda-se a teus pés. Aí confluem vertentes
silentes e ignoradas. Ficas
mudo e emocionado, esperando para ver no que dá de acontecer.
-
*104 Trouxeste sabor a
mel
a meus momentos desolados.
Devolveste-me ternura ao olhar magoado.
Obrigado! Se algo te dei,
em breve troca de palavras,
ou em jeito de
atrapalhação, guarda-o para ti como eu guardo a graça
de tudo o que me deste e
nem sei dizer. Os passeios que dávamos,
p'los recantos de antes da
doença de existir exausto! De repetir teu nome,
sinto de volta o tempo das
frementes e gloriosas primaveras. Foi bom rever-te.
Pra sempre regressaste à
cidade plana, repleta do eloquente azul do teu olhar.
Longe se nos perdeu algures
o instante pleno do acre vinho, da bela juventude!
-
*105 Também, das horas,
os nomes
surgem mensageiros, do destino
de sermos, corpo a corpo, como deuses inteiros.
Também, dos nomes, se
completam as falas, porque, do manancial da água,
encontro a poética
explicação de mim, na fortaleza justa de abraçar-te, última em meus braços.
Também, dos sonhos, resta a
inocência, porque te reencontras a ti mesma, tanta vez inteira.
Comigo estavas desde
início, não te esqueci, ó enviada.
Eras parte da força
estabelecida sob o ângulo da nossa casa com uvas.
Assim foste nascendo,
comigo, para a ilusão do nada, portadora de lágrimas,
sorrisos e perdas
redimidas, na alegria feroz das horas, companheira.
-
*106 A maior alegria de
Isiéli,
a trapezista triste, está
em saltar impossíveis, pra lá da cobertura,
de um fio de arame, até
pairar alta por entre as cintilantes estrelas.
A maior alegria de Isiéli,
a trapezista triste, está em ir, sequer em sonho, até pra lá da lona,
entre fios de arame e
estrelas, pra voltar ao chão, e andar somente, ligeira como se voasse.
Isiéli caminha, entre seus
afazeres, como em pleno voo no trapézio,
em busca da paisagem única,
que lhe apresente o último limite do amplo, estrelejado céu.
É-lhe necessário bem
ponderar fraquezas e forças em pleno salto.
-
*107 Lembrar-te ainda na
varanda,
atravessando a hora da
despedida, me faz quebrar a mudez envolvente,
pra falar d'inefáveis,
entre montes perdido. Não, não vou para o mar,
fico entre serras de
brisas, na secura fria de um canto, que sinto subir desde mim fundo.
É um canto de terra, de
frescor rejuvenescido, um canto do caminho, que há a caminhar.
A esperança de rever o já
esquecido.
Alguém com mãos para todas
as crianças, mancheias de abundante pão,
a todos os pequenos
almoços. Uma mulher com um livro, aberto, lendo lentas páginas,
de pé, aos pés da cama, o
livro junto ao peito. Ou um fragor de tronco, a antemanhã, súbito,
subindo de subterrâneas
raízes ou do subsolo imenso do sonho: Um fundo olhar,
um rosto, uma espada, no
preciso sítio do abalo, o exacto lugar da mesa de cabeceira.
-
*108 A brancura versus o
castanho pardo:
A jovem mulher Mãe, que a todos
ama, co-redime a decaída humanidade,
mal refeita da paixão e
morte do Filho, em campos de arame farpado, de concentração.
Quando ressuscitas, homem
morto do chão das baionetas? Esperamos por tua derradeira vinda,
pais de filhos ausentes.
Duramente ultrapassaste o ardor de inferno vivo.
Fizeste teu esse peso, ao
pleno sol do agora novo dia. A jovem mulher Mãe meiga sorri,
e agasalha todos seus
amados filhos, mártires conTigo, ó Novo Homem!
-
*109 Senhor do Bonfim:
Aí acima estás, erguido em
cruz, em teu lugar de dor:
Dura dor, tua dor, que é
dor de morte vida! De estares aí assim, morto e trespassado.
Mas contigo arrebataste a
humanidade de cada um
dos que até aqui trouxeste,
até a teu tão alto aterro.
Em dúvida a Ti venho, mudo
e perturbado, na busca da Esperança,
que ficou da Tua vitória
sobre o fim. Deste ao bom ladrão lugar cimeiro,
à direita imensa do Pai. Vá
conTigo também meu coração!
-
*110 A Verdade vos
libertará!
Libertará aqueles cujos
nomes constam do grande livro da vida,
os que vieram da árdua
tribulação: Com suas túnicas,
lavadas e branqueadas no
sangue do Cordeiro, torturados, gaseados, cremados,
as cinzas da vala comum
dispersas aos ventos da ignomínia, reviverão!
Credes isto? Acreditais
contra todas as razões da desesperança?
Adeus, príncipe, pela
primeira vez encontrei um homem.
-
*111 A ti, sentinela, te
constituí vigilante da Israel família humana.
Não te escuses repetindo a
pergunta de desculpa: Acaso sou responsável p'lo irmão?
Se não o alertares e ele se
perder, pagarás por ele.
Se não fizeres soar da
trombeta o vibrante toque, cairá a ruína sobre a casa.
A ti se pedirão contas. Se
não proclamares teu aviso em tempo,
nas profundas cairás
precipitado. Pagarás pelos teus, porque não vigiaste.
Se forte fizeres soar o
som, o pequenino seixo branco, que então terás na tua mão,
te encherá de redobrada
alegria, te fará transbordar de grande, grande paz!
Que o Rochedo te não
destrua. Aponta-O. Ele te será o bem mais precioso,
o tesouro escondido, p'lo
qual tudo deixaste. Dentro aí, letíssimo se aclarará teu coração!
Senhor, eu não sou digno
que venhas partir o pão comigo, e descansar sob o meu tecto,
mas a uma palavra tua, a um
leve aceno teu, eu serei outro!
-
*112 Forte e subterrânea
convulsão, repentino estrondo surdo:
De sua força íntima,
brusca, uma árvore se eleva do chão.
O Anjo da Espada desce os
últimos confins da Terra, transportando consigo,
à geral devastação, a ira e
o furor justo de Iahweh. Seu fundo, escuro olhar fixa o então dormente mortal,
que, num estremecimento de
susto, se fere de estranha, benévola mágoa.
Do esplêndido corpo da
paixão, do Filho do Homem, transborda, se derrama,
p'la brancura diáfana do
vaso mais que cheio, o leite do mel do doce pão,
alimento das muitas
crianças mortas de fome. O pão é dor do homem vivo,
dor de sangue, água, vinho,
fruto da tortura até à morte de que é vítima o faminto da paz.
Logo, aí, se dá o
verdadeiro despertar, em lágrimas, do peregrino do Oriente regressado aos seus.
Do grande livro, a jovem
mulher mãe relê, enlevada, a escrita rigorosa e última, dos milésimos de
segundo:
Enquanto firmemente em pé,
olhos descidos sobre o tecido do texto,
Intangível assiste a feliz
ultrapassagem da Eternidade.
-
*113 Alegria de umas
casas
de pedra, os vãos ausentes,
longe em Trás-os-Montes.
-
*114 De hoje em diante,
José,
a ternura, o esforço, o
Abril nítido, instante, repetido.
Até quando, do íntimo
secreto sono, acordar a realidade enigma do que somos.
Enquanto ouvimos alguém a
chamar p'lo nosso nome.
-
*115 Nas cortinhas, sós,
as casas.
Dentro, os jogos antigos,
sonolentos. Processando-se,
a arrastada labuta da
cozinha. As brincadeiras, furtivas,
dos meninos pobres de minha
aldeia vila: Seu nome é quase paz.
-
*116 Resta memória
de um estremecimento
obscuro ou de uma palavra, que, de tão recôndita, resulta impronunciável.
-
*117 Houve um dia
em que eu li nitidamente o
teu nome, em escrita clara, esbranquiçada.
Houve um dia em que as
contas deram certas.
-
*118 Em seu delinear
de esquemas, 'squissos,
linhas últimas,
teima o lápis, firme e líbero,
prosseguir largos espaços.
-
*119 A instantes, o zelo
de querer-te.
Crianças dormindo a clara
noite, olho as brevíssimas luzes,
pontilhadas no negrume:
Afazeres de agora.
-
*120 Um intenso tráfego
corrói a antemanhã do vazio
enternecido de após sono.
-
*121 Alegria profunda
-
eis a verdade, na pequenez
de um menino -
esse menino puro, que de
cansado se recosta defronte do portão.
-
*122 Sons ante a mesa,
lisa frieza de branda água.
Manhã, de um jornal, povo espaço de percorrer-se,
claro até ao grito do
cansaço. Em força, de dureza, de persistente trabalho.
-
*123 O amante de tapetes
vive no escuro de um dia
noite.
O apaixonado das águas vive
o contínuo rio de ontem.
-
*124 Aqui poderás ler
de quanto, à indiferença,
mais é indestruída a fé, que é sermos rigorosamente livres.
Na certeza de ensaios,
tanta vez refeitos, no afã de converter a jovens peixes
em iniciados da próxima,
futura idade.
-
*125 Restar
adormecida em si, e desde
sempre, a longa tarde de música em fundo, na alegre chinfrineira do bar,
dentro, onde se esconde o
eu. Ténue graça de um longo tempo de Verão, pobre, de férias, desprendido.
-
*126 Alargam-se-me
montes sobre montes
de encantamento. Dentro do
sonho, no pesadelo acordado,
da pedra, do horizonte, da
árvore, da vinha, da erva e da alimária, vou.
-
*127 O Largo de Jesus,
à chuva de Verão:
Distanciando-se, a pequenina mão, da pequenina,
a acenar, a acenar, em
longo adeus ao pai, que cá atrás, ficou, suspenso em pasmo.
-
*128 Pena é que a agenda
registe,
tão somente, as voltas vãs
do contínuo divertimento.
Não inclui o importante
desígnio de mudar do mundo o estado de coisas:
A parte que, do íntimo de
si, cabe a cada um levar a cabo.
-
*129 Deserto, encaro a
névoa.
Na perspectiva de um dia
por achar.
-
*130 La chanson des
vieux amants:
Estranhamente, enquanto
desliza o tardo sol pelo afogueado Ribatejo da CP.
Aí, de estrangeira te fazes
íntima, e me acompanhas na prece ensonada do coração doente:
Vivemos lentamente o que em
disfarce nos foge, tanto quanto a ânsia alcance: Há a possível aventura da
viagem,
quando os bravos pinheiros
deixam antever da maravilha do céu: A azul melodia nos fere,
de tal modo, que nossos
gestos, de uma vez por todas, se perdem e se esquecem:
Ténues se dissipam, muito
pra lá dos frustes movimentos da ilusão.
-
*131 Do meu quarto
fechado
ou dos confins da minha rua
ao lugar mais perdido do mais vasto dos desertos.
Do mais fundo dos oceanos à
avenida mais movimentada da maior cidade.
Da mais barulhenta das
discotecas ao mais distante cume da mais alta, nevada, das montanhas.
Do escuro teatro de guerra
ao lugar de maior paz, entre animais, na noite dentro de um estábulo.
Do mais recôndito, mínimo,
pontículo da mais ínfima das porções da pulverizada matéria ao mais
inimaginado,
distante deslimite de
galáxia, ou ampla mancha, até agora inexplorada, não surpreendida, por nenhum,
dos muitos,
observatórios astronómicos
de vastíssimo alcance: Por onde quer que eu esteja ou por ventura imagine,
Tu sentes respirar minha
oração: Jesus, Filho de David, tende piedade de mim, que em Vós confio.
-
*132 Aquele sonho
de onde teu nome decifrei
depois do túnel. E a nudez daquela foto, em que estás a olhar.
-
*133 De ouvir um solo de
trompete:
Que poesia ou ilusão te
insinua o cruel ver, de horror sombrio e morto,
após o sono, após a hora
oculta e parva? Serão histórias de sonhos de nada.
-
*134 Terra,
tu ficaste comigo criança.
Dias passados, desapercebidos. Com teus largos, amplos espaços
e um povo sem cinema. Com o
bom Deus - ou, por Ele, Mãe Maria - a intimamente olhar, focar, fotografar.
-
*135 Uma, duas flores
lilás
e o retrato, de infância,
na carteira de trazer. A luz debaixo da água, a luz branda, a lâmpada apagada.
O poeta, de esguelha, com a
cara entalada. Ânimos ferindo-se de sons de choro.
A sombra tornando sobre a
mesa. O passeio talhado rigorosamente. O candeeiro, ou o aparo.
À amarga indiferença do
mundo. A nuca é um ponto muito vivo. Disse, e voltou-se, o meu melhor
amigo.
Os braços doem. O
psiquiatra é um senhor envergonhado. Uma formiga em apuros,
na sequência mesma do
desastre, cruamente. E, ainda assim, o interruptor, as finas películas, as
pestanas,
a clarabóia, o óculo, a
mudez pública. Logo, óssea surpresa d'ombros, alguém que irrompe brusco em pleno
palco.
-
*136 He was a friend of mine. He never knew my name!
Ir a outros dias. Murmúrio
indelével de sinos tangidos longe - chilrear,
dúbio, na madrugada - remos
de iniciado remar - seguir de teimar paz.
A canções tenuíssimas, neve
de florir.
-
*137 Disse eclipse,
cinza, resquício, clipe,
caldo, acorde, garfo, sono. Chiar de alpercatas em ginásios.
Tontura sobre ravinas e
ribeiras, raiva de abismo.
Sumirmo-nos esperarmo-nos,
na amizade calada na estranheza.
Esquecidos da primeira
leitura do escrito. A dar de escutar os muros longo tempo.
-
*138 Baloiçar, em corda,
em u,
teu mundo de ir mundo, nu
estertor.
-
*139 Lembrar ainda,
de inacessíveis, antigos
companheiros. Lembrarmo-nos de nós também,
em amargurados beijos, desertos
da Primavera. Vamo-nos ora, levamos paz embora.
Reencontrar-te inteira num
cartaz, ó femme douce! Um nu, um monte, A Azul, tu!
-
*140 Um bocado de lua
para dar de arquitectar
invenções de calor, na amizade das horas. Malgré sua verdade
amargura, longe vai, longe
de montanhas onde sua ternura, suas amigas, sua tristura,
seu quê distante para mim.
Quando a vida sofrida não pesar demasiado pedir-lhe-ei segredo de uma coisa.
-
*141 Aos solavancos,
berra desespero o amarelo,
percorrendo ruas. A séculos de distância,
na biblioteca, silabando à
minúcia muitíssimos erros de sintaxe,
sem saber da testa e sem
réstia de literatura, o último dos poetas vai e diz:
Meu país onde morre o sol,
na dura raiz do pão exangue:
Onde o meu poema, o meu
exílio, a dolorida mágoa, a força da terra, o meu amor:
Onde deserto significa
sequioso: Onde a fria neve se acende viva em duras mãos estafadas.
-
*142 Parque:
Deslizam, ao fundo, os
ledos cisnes. A uma sombra de árvore, descansa alguém
do trabalho. Bambinos
sumindo-se folhagem dentro. Há luz e há água, aqui e ali.
-
*143 Capela:
Histórias em azulejos: Nas
paredes, ilustrações de episódios dos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e
João.
Lá em cima, erguido à cruz,
o homem. Vivo e morto, entregue a calma paz, dá passagem ao ladrão do lado.
-
*144 Cercanias do
estádio:
Sobre saibro, os sapatos,
dos trajectos repetidos p'lo correr dos dias,
que levam à sombra, a
abrigo, a longe da torreira de um sol cru.
-
*145 Casa dentro:
Ouço e sento-me. Reiniciam-se
os mesmos gestos gastos, espaçados, de pôr mesa.
-
*146 Do coração que Deus
conhece,
em sonho fiz o poema de
minha vida. De que ficou um verso, aqui esquecido, do rio do tempo
eco perdido. Que releio: Ou
para um lado ou para outro, voo no seu amplo alinhamento lá pra lá.
-
*147 Era uma vez:
A tarde toda, o avô contava
das suas histórias. Meio aturdidos meio ensonados,
na infância dos sonhos,
devorávamos o mel do desenrolar da narrativa,
a, sempre, sempre
invariavelmente se concluir: "'Inda além vai a raposa, a correr a sete
pés!"
O avô apontava para um
longe. Meus olhos, súbito espantados, arregalavam-se para o mais pra lá
da abrasada varanda. Ampla,
térrea, habitada da densa ausência, a vastidão deixava-me de si mesma
suspenso. Eram encostas de
encostas, de montes sobre montes, insolados, prenhes,
de graves dorsos, rasos, de
todo rasos da maravilhada aridez!
-
*148 Natal:
Simplicidade grave, a dos
humanos, rudes corações transidos.
-
*149 Afazer:
Um a um os poemas: Bem é,
que a vida passa. Com a graça que move o poeta a os escrever.
Dou por esquecida a obra
lida e por esquecida a obra a ler. Parto, de vez, à longe margem.
-
*150 Entrechos, enredos,
à tona.
O húmus cheira, e é aqui.
Desligo da trama do televisor. À flor do ecrã,
desenrolo o anti-enredo de
quedar-me. A cadeira, na mesa, situa-me a não-aventura da escrita.
Que Deus em justo tempo me
ajude e, directo, me encaminhe morte dentro.
-
*151 A fina aragem
aproxima-me uns brandíssimos
acalantos. Tudo dorme. Num deserto imenso e de eco
ausente. O silêncio
ambiente irrompe e repercute circundante, as mínimas vozes dominando.
Engasgado,
tenteando resmungar um vago
protesto, o gato à corrida, acossado do calor. Leve vento me visita, e emudeço.
-
*152 Repetem-se, dos
femininos dedos,
os lestos dedilhados, sobre
o larguíssimo teclado do piano.
Pára a tarde. É a
felicidade ou, tão só, uma vontade de chorar?
Lá fora ou cá dentro
crescendo, o sussurro do arrastamento do vento na folhagem.
-
*153 A noite
transfigurada de enamoramento,
nós os dois, reclinados na
palha da eira, ao bafo quente de Verão,
os olhos viajantes p'lo céu
estrelejado, rumávamos, no vasto negrume
do insondável, aos mais
distantes dos pontos luminosos do remotíssimo luzir.
-
*154 O peso do corpo:
Donde presumo esquecidos
versos que não sei.
-
*155 Comunicar -
nada que se possa
adivinhar. Quase insensivelmente, ouves-te dentro poetar.
Porque nasceste, e
renasceste muitas vezes num momento.
-
*156 Fazemos uma grande
concha,
os dedos entrecruzados, dez
e dez, vinte, os dedos. Os pescadores,
que estão ali por perto,
perguntam-nos montes de coisas. Cobrem-nos
com suas redes de pescar
tristezas. Trazem-nos dos raros caranguejos.
-
*157 As escamas azuis de
uns peixes.
Uns acrobatas, uns
gafanhotos, uns louva-a-deus, joaninhas, juncos, uns nenúfares.
Fora o amargoso digerido de
afasia. Baços de todo o transe os nus tapumes.
-
*158 Cá amanhece
vagamente.
Ocupa-se, pacata, a emoção.
O poço é triste, triste de dizer, e de datar.
-
*159 Povo, onde estás,
além teu lugar, que te não
vê. Eu em feira de livro,
rugas sobre rugas, papeis
escritos. E tu nem pensando,
como se depois de longa
viagem.
-
*160 Cinza a cinza,
resquícios de uma dor a não
se ir. A face complicada à inquietude, ante a expectante
sibila deste instante. Mas
um sorriso, um aceno, e tudo, enfim, momentâneo, incerto sossegar.
-
*161 O aclarar da bruma,
ou a geometria esquema da
paisagem.
Saímos logo de seguida,
pois é bom passar entre relógios.
-
*162 Porquê as rosas brancas,
eternamente brancas?
Surpreenderem-nos, de inesperada carícia, algum Outono.
-
*163 Anne, Anne,
tudo em ti termina nos teus
dedos. Somente que teu olhar irradia dia. Tílias altas,
aéreas. Chove no escuro
alcatrão da rua, espesso corpo imenso, prolongando-se.
-
*164 Descobri contigo
o milagre da prossecução
dos dias e das noites.
-
*165 A moça me espera,
é tirar o poema. Senhor na
tipografia, vou levá-la a passear. É tirar o poema, é tirar o poema.
Palavras não contam, o que conta
é viver. Senhor na tipografia, não atrase o poema.
-
*166 Sair realmente,
a desanuviar. Sucederem-se
abruptas, subitâneas esquinas.
-
*167 O tempo das suaves
raparigas:
Os rostos queimando-se em
mil vidas. De um limpo e largo olhar.
-
*168 Querer bem aos
luminosos aranhões,
lentos no ofício de
pacificar - roubassem-nos a casa,
ficava o luar - tão chato é
o piolho como o pensar -
palavras lentas a pacificar
- não nos roubam a casa - e há a paisagem lunar.
-
*169 Manhã serena,
Stockhausen debaixo da cama.
O tecto plano, igual ao céu,
igual a uma mulher,
reclinada e distensa, após o sono oculto e revolto do desejo.
-
*170 Tenho para ti que o
cinamomo -
árvore de dificílima
declinação - te escondes estelar -
talvez sim ou talvez sim -
tenho para ti que - à relação infinita,
inumerável, dos concertados
gestos - incolumemente habitas.
-
*171 Cortinados no vento
-
janelas, espaçadas na
distância dos pedregulhos.
Um certo sorriso, umas mil
e uma vezes bombardeado p'la televisão.
-
*172 Candura
instantemente relembrada.
Não, não da tarde que,
findando, dilui a impressão de um jogo relva: Quem não colhe memória
dessas ou doutras que tais
doces charadas, perpassadas do ritmo dos sorrisos?
-
*173 Hoje, ontem, amanhã
-
cá, não lá, na certeza de estar
ao rés da terra - onde a força recôndita do imaginário -
desperto reerguer do
esquecimento - do secreto refúgio de onde ser eu próprio -
café, água, saibro de
estranhas luas - linda de morrer, tua face me alumbra e desanuvia.
-
*174 Dedos gastos
e a chatice de repetir boa
vontade: Antes o esquecimento, a lua, inóspita, lontana planura.
-
*175 A pátria toda a
terra,
a terra toda paz, a paz da
ampla palavra, a palavra toda pão, o quente pão do coração.
-
*176 Wasser, Brot und
Wein, aquando a Ágape,
a refeição entre os muitos
partilhada.
Crianças e virgens entoam
cantos à clara luz da lucerna.
Salmos, hinos ou cânticos
espirituais.
O diácono pega no copo e
dá-o. Dirá aleluia. Dará também a partir o inteiro pão do amor.
Todos proclamam, enlevados,
os sentidos cantares da transbordante alegria:
Alleluia, c'est-à-dire,
nous louons celui qui a fondé le monde, par sa seul parole.
-
*177 Era o vale de Deus,
mas negociado. Fogo e luz
devastando, vastíssima, a planície.
-
*178 A cal das paredes
-
os pés dormidos - a imensa
desolação - a apatia sem nenhuma saída - os sonhos doentes -
a brancura horizontal - a
imobilidade lua - o brutal esmagamento dos olhos - as raízes
podridas dos pés - os ossos
dos dedos, quebrados - a paralisia dos astros apagados -
os enredos das loucuras
visíveis - os pardais, inquietos e irrequietos - os gestos, precisos, vigiados
-
a tensão das fantasias
roendo-se tremendamente disformes - o bilhete perdido não se sabe onde - as
mansas,
lentas horas - o corpo arrasado
da doença - o amor enamorado do horror - aquando do insistente barulho
ambiente.
-
*179 Le clair air -
ao ver cair: Saber a dor,
que me constrói. Isto dizer paz.
Para seres tu faltar-te
ainda a experiência da mágoa de muita, muita morte.
-
*180 Os dias esbarrados
de desvario:
Pouco a pouco, ergui calma
a habitação,
a encher de tuas palavras
toda, a os pais avós segredarem estarmos.
-
*181 Il y a
des choses, des couleurs:
Des choses roses, des choses fleur.
-
*182 Tu a única e eu,
outro que não eu, ouço
as ervas do teu riso:
Aturdidos de surpresa,
damo-nos conta
dos restritivos ao que
somos aquém escrito:
E disto de as embalagens de
cigarros
não trazerem reimpressos os
predilectos poemas: Porquê, mas porquê?
Embarcações e água, e
montes: Viena ou Praga, acima dum fumo de poeira:
A confusão explícita
resulta de explicar onde possa ser o só enfermo de teus braços.
-
*183 Percorres ruas,
vens triste de alegrias
resignadas, força de moça povo, com jornais diariamente. Tudo,
sempre à conta do mesmo - o
pão quotidiano. Cansa-te em ralhos, ao meio dia, ao caldo, aos feijões, às
couves,
enfarruscada, palhaço, a
dares-me coisas. Lês, por vezes, notícias. Queiras ou não, ouves a rádio. Dos
altos cimos,
das árvores, das searas, de
França, dos ermos áridos, longínquos, desolados, perdoa se te esqueço.
-
*184 Ardidos os poemas,
solta-se, ainda, o
irredutível grito. Era com a impressão, nem sei.
No que vejo me penso. Mas
estou? Exuberante, breve adolescência. Pacífica e lenta,
mansíssima Primavera, avassaladora,
revoltada toda do encanto da comum solidão.
-
*185 Poço de luas novas:
Os enredos esquecidos sob a
ausência das bocas. Nos sonos dormidos, com os pés no mar,
o pescoço torcido,
estremecido, nos montes das dunas, com os olhos - os próprios? -
a apararem dos céus - em
queda - da azulada, resplandecente luz os ultramóveis meteoritos.
-
*186 Relera Joyce, no
terraço:
Cinzento, meu amor,
cinzento e fundo, íntimo e fundo em mim, teu amor é-me.
Não evoques mais os dias
encantados! Não te cansaste já dos ardentes caminhos?
-
*187 O ser morre de ser
sem quê nem cor, sem se
sentir de si. A opacidade, o volume, o enlevo inimaginável
das cores da
transcendência: O verde dos olivais, um verde escuro, sujo:
O rubro das papoilas, um
rubro vivo, sanguíneo: O amarelo das anelantes searas, um amarelo torrado e
quente.
-
*188 Tenuidade,
ambiguidade,
anonimidade, anónima
anonimidade: Os dedos sossegando-se nos joelhos.
Quem está a falar fere-me
as costas.
-
*189 Das fendas das
palavras
os intervalos quais janelas
- coisas de nada de tanto dia que nos não vemos - a mesma
condição que amigamente
lembramos - de cá dos muros que nos fizeram. Há um povo à espera.
Subterrâneo adormecer sem
repulsa. Segue adiante, em teu rouco trepidar, carroça, fúria de liberdade.
-
*190 A democratização do
ensino -
o analfabeto problema - o
amigo analfabeto - a objecção de consciência - o rotundo não -
o conferencista da douta
ciência - o nome cristão - a não-violência - o alfabeto amigo - o sol,
óbvio analfabeto - o vagabundo
analfabeto - o astrónomo levado por azar no enterro - o alfabeto pateta,
cientista,
doutor e demagogo -
alfabeto e é que analfabeto - o alfabeto útil, o alfabeto inútil - alfabeto e
não alfabeto.
-
*191 Jarra das rosas
roxas da luz,
liberdade do fluir do vento
na cortina diáfana, transparências de recolhimento,
maior brancura, da coberta
estendida sobre a sólida, branda madeira da enorme mesa da enredada renda.
-
*192 Do resultado do
amor,
ou do olhar, ou do estar
perto, ou da chuva na vidraça, ou do pensar sem querer
e ponto por ponto do
sucedido 'screver, do relevo das coisas, que morrem ou não, ou do não ou do
sim,
ou do sim ou do não, ou do
disjuntivo ou, o ânimo próprio, um tudo nada desmedido o intervalo interior.
-
*193 Talhando poemas,
com blocos de pedra:
Relia o Jerónimo Fernandes:
Que não se sabe morto.
Queria o livro igual a um
mapa-múndi. Mas os joelhos quebrados.
-
*194 Un enfant m'attend
pour pleurer:
Nota: Un enfant n'attend pour pleurer. Digo-te sem ver os telhados,
os terraços, os montes na
amplidão, azul e igual o céu,
as rodas de arame nas
varandas, o sossego dos putos. Que não esqueça.
A espaços, lá pra lá da
sacada roubada à vastidão, o distante fluir dos carros, de infinda serenidade.
-
*195 Outro dia, outra
estrada, outra hora.
Não vou dizer-te quanto te
quero ainda. Sabe-lo bem,
doutro dia e doutra hora.
Já não te digo quero-te bem.
Pessoas seguiam juntas e se
diziam cem mil palavras. Só eu nada dizia.
Íamos por uma estrada e sem
palavras. Achei então uma florzinha,
de adivinhar que não me
queres, que bem me queres, tudo, muito, pouco, nada.
E nenhuma palavra pra
dizer-te, ou repetir-te, quanto te amava ainda, branca pomba!
Havia sons, festa, alegria.
Um outro dia, uma outra estrada, uma outra hora. E eu contigo.
-
*196 De l'eau.
Ombre, lumière, silence,
joie. Oui, non, peut-être. Miroir luisant.
Des chasseurs, ôh! O que
fizer aborrecer. Mas estar perto de ser até mais ver.
Condição de exílio,
pouquíssimas cidades como Omaha.
Os sapatos rebentados, p'la
noite vasta: Pai, dá a cada o pão de cada, cada dia.
-
*197 A prateleira,
dentro:
O rio, à gaveta: A
rapariguinha, o palato e também o papel:
Ou o bolso do pão e da
ternura.
-
*198 Desenhado o teu
sorriso,
na esperança de ver-te, se
der por isso. Étaix: Sábado noite, um barulho inextinguido.
Saltamos c'os saltimbancos
pra cima da linda tromba do elefante anedótico.
Sós, as árvores não
constam. Pedis-me um abraço. Não sei, isto é cansaço.
À medida dos braços as
notícias. Depois da travessia dos peões. Depois do teu sorriso perseguido.
Antes do jardim dos cisnes
brancos. Antes da verdade da conversão. Antes do profundo, desopressor
descenso. Antes da imensa e
única, súbita eclosão. Antes da última, pré-anunciada, efectiva paz.
-
*199 Joseph K.:
O pasmo, ou, certas vezes,
o além dos limites dos vidros das salas, das costas das portas das janelas,
aparecendo escusos recantos
sórdidos, paredes semelhando fins de espaço. Se, além, mas... Dentre sombras,
vultos,
da fria ruela, apertada de
altos edifícios, 'inda lâmpadas, 'inda chuva, 'inda, lá, a azul estreiteza a
longe olhamos.
-
*200 Em criança:
Deitado na noite contra o
tecto, quando estava prestes a adormecer, ao lado da criada velha,
calcava as pálpebras com toda
a força. Em tons lilás, inimagináveis, muitíssimas nuvens de estrelas
o transportavam, vivíssimas
sob seus olhos, ao íntimo, entranhado e secreto, céu infinito irrevelado.
-
*201 Os pobres trabalham
cedo,
algum poeta escreveu. Se,
manhã, já dia, é belo, no trabalho não entendem. O trabalho, os braços,
os braços, o futuro.
Esperança, alegria, alegria, esperança. O pão dos pobres é duro,
duro pão o que trabalham.
Os poetas, quando muito, dão aos pobres o cantar. Quando é que o sol se reparte
neste profundo alçapão? Os
pobres trabalham cedo. Têm o sol por futuro, aqui neste ermo cego.
Mas as lágrimas lavrando...
O pão, ou suor dos rostos. Mas os poetas trabalham.
-
*202 Aujourd'hui je suis
loin, mais je reviendrai un jour:
Raparigas dançando nos
confins do sonho - noivos
a um comboio determinado -
frescura de um corpo casto -
todo o bar revolvido retine
o ácido som metálico do entrechoque
das mínimas moedinhas, que
nos dão de troco.
-
*203 A cidade debaixo do
ascensor:
Chaplin à tela, clown
desequilibrando-se, e a milagre se firmando, no incerto fio do arame.
Como se, de quando em
quando, lhe adviesse a turva inquietação do desespero.
-
*204 Mesma quietude a
dos pulmões -
do fim para o princípio
rescrever até chegar a além - não mais, senão a esperança
num sorriso breve - um dia
outro, o gemer do violão, a aldeias demasiadas para um só cantar -
pássaros e nuvens nos olhos
fontes - alheamento mórbido - um corpo prá rua atirado - um sono dormido,
inteiro,
em tuas palmas das mãos -
terra irrompendo em sua carne metálica, desdobrando-se de levantes - lado de
lá,
sem margens - leve tanger
de sinos - chilrear dúbio a a manhã do alegre viajar - inerte vacuidade de
brisas -
e ilimitação de si mesmo -
d'aves asas, voos - um seguir de soltos versos - repouso de cansaços vãos - da
solidão,
de que não morres - mundos
soando, de lá do encantamento do furor - noite gelo, tranquila a medo - mar
contendo-
-se - linguagem de arbustos
frios vergando-se - ruas em seu quê de cismar paz - só a mesma mesa de café, a
mesma,
do acaso sem história de
uns bons dias - se a neve se suspende das árvores de florir, enquanto as
paredes
descansam - algo que se
interrompe - ou uma indetível vontade de falar - múltiplos enredos d'is - nem
restar - aquém -
o só intermédio de gélidas
estrelas dormidas - ou formigas - ou agras urtigas - olhar, de seguida, o modo
como
as pessoas bruscas se
escapam - referir remotíssimas paisagens a recortes de acaso, de restos de
desperdícios
- colá-las, em registo, ó
companheira, à lembrança, hábito azul e quotidiano, disto aqui em loiro mel
envolto.
-
*205 Uma louca alegria
correr, correr as manhãs
esperadas.
-
*206 Fui ver a tua
janela,
voo, pomba, ponte ou barco
à vela,
longe de perdê-la.
E não era a ti que eu via,
era o amor.
-
*207 Olhas para nós.
É como se ficássemos nus,
perante Ti. Fazes-nos fortes, fazendo-nos sentir
próximos de Ti. São
brandos, Teus olhos. Neles repouso e emudeço. Tua face, deslumbrada,
invade as distâncias mais
recônditas, fremindo do eclodir de imensas claridades.
-
*208 O amor ressuscitado:
Mais do que sonhado era o
corpo da Mulher.
-
*209 Quando não ao
ouvido
algo que instante soa. Que
se define, ó castelos de papel?
-
*210 Lento a prosseguir
até aos mais altos
guindastes o afã esquecido das obras.
Enquanto acontece deixar
atrás de si prolongando-se um alvíssimo, ruidoso rasto,
um avião sobrevoando-nos.
-
*211 Alguém à janela
-
e trigais ressaltando a cor
em torno. E camponesas e gadanhas.
-
*212 Apeteça ou não,
por chatice, fácil, fácil, no
entanto certa, erva de escombro para a amarela, vermelha luz.
É rigor, dor, ficar, dar,
deixar, estar. Asas ao rio: Construir os dias por igual. O relógio, sim, mas
quê?
O granito ou o xisto do
negror local. Mau grado inúteis, repetidas antinomias. Palpitar, simples, de
rigor.
Tensão anseio, tua face
matéria, presença do que és através - Emanuel - desejo, entre abismo e
verdade,
puro, essencial grito.
Contenção prenhe de ser a advir. Da plena eternidade prenúncio, encantamento,
início.
-
*213 Verdura de folhagem
enquanto a luz assim,
o corpo dormido, tranquila,
límpida, a branda luz fulgente,
repetida e intraduzível
situação limite.
-
*214 Do imo o palpitar
uníssono na brancura.
-
*215 O portão gradeado
na luz
ou a luz no portão
gradeado. O abscôndito eu, 'inda invisível.
-
*216 Dou-te uma rosa,
das que estão de caminho
para ti, todos os dias. De olhos fechados não vês?
-
*217 Vaga sensação
saudade -
do bosque emaranhado ao
pavilhão.
-
*218 Puros dentre
ramagens,
surtos rostos, quentes, opressos,
duros, puros d'água, sorrindo, abrindo-se, amargurando-se-lhes
rugas, os amplos, claros,
largos rostos, Vietname respirado. Do aceso fogo devorados.
-
*219 Ruir interior -
tabiques, areia ou cal,
ecos sumidos - pedras de pedras sobre pedras, tua saudosa ausência, ao peso
dos dias asfixia -
andorinhas, valados, voos - vaga névoa - da manhã carregada, a branca, branda
nitidez -
carros, alcatrão, óleo - de
repetir-se, iluminar-se, aclarar, esclarecer, a campo, o mais pra lá da rasgada
janela.
-
*220 Raiz de ouvir:
Árvores, ontem, candeeiros,
sinos: De longe, longíssimo.
-
*221 Toujours, toujours, pour le Printemps,
l'abîme est vert, je me lève en souriant. Toujours, toujours,
pour le Printemps, il y a
des hommes qui nous vont tuer:
- Et des chansons pour
chanter mourir.
-
*222 O que cada um disse
já eu disse, de mim para
mim,
para o distante divino
outro,
quando irascível jovem cão.
-
*223 Estar por dentro da
luz
o obscuro quarto - dos
amorosos enredos transtornados -
santuário de antemanhãs ou
de fins de dia - ou o poema quarto - mas aparar ar.
-
*224 Um sonhado António
Maria Lisboa,
poema, pára-quedas, mil,
ventoinha, plataforma, espaço,
a a manhã acordada a ténues
linhas.
-
*225 Os amantes sem
dinheiro:
Um endereço à praça
desconhecida: Nem um tostão ou o amoroso ohm!
-
*226 De fábricas
eléctrico um silvo de
agudeza. Um borrão negro prantado sobre a boca.
-
*227 Mesmo ali um rapaz,
que, desde cedo, esteve
labutando com pás e com areia.
Acena-lhe, pois as couves,
as cebolas, as batatas, da hora de almoço,
cabem, com ele, nos duros
poemas de amor das mãos de um extremo fio.
-
*228 Entremez brevíssimo
de instantes:
- Nós os dois somos iguais
a um olhar.
Disse-lhe mansamente.
Depois disparou sobre
ela-ele.
-
*229 Meu louco amor,
teus olhos, espaços
deslumbrados, irrompem dum bocado de mudez.
Não precisamos de lançar o
olhar para cima ou para baixo, mas a diante, e andar p'la cidade.
Por onde, connosco, vão
emoções. Delineamos, sinistro, um filme diário,
personagens de segundo
plano, apagadas porque inúmeras, uma das câmaras sobre a cabeça,
outra sobre o coração, os
mínimos tiques, jeitos, gestos ou palavras percorrendo-se, oh,
numa processão sem cortes.
Milímetro a milímetro, instante a instante, em novo tempo, nos jogamos.
-
*230 Os ossos quebrados
dos dedos,
os estéticos,
super-esquisitos devaneios, os pardais resistentes, o sono sem horas
dormido inteiro em tua
cara. Um interrompido adeus p'los meses do desastre.
-
*231 De cerdeiros, a
rama baloiçar:
Sílabas, sílabas: Cecília,
xadrez, braço, disfarce, testa, sexo, fax, faca, facto.
Sair realmente para andar,
ao lusco-fusco, por devastadas áreas.
-
*232 Sons espaçados,
ritmados.
Não querer armas, não, mas
espigas gradas, rosas rubras,
a canções, brevíssimas, da
mais pura neve da ternura.
-
*233 Vestida de branco,
era um anjo à rua. Desceram
à cidade os anjos da lua? Era anjo ou lua?
Terra ou céu, ou caminho,
ou rua? Toda de branco, anjo, lua, terra de céu, lua de rua.
O céu e a terra se fizeram
rua. Vestia um vestido branco a mulher nua!
-
*234 A Espada, caída:
O furor justo. O Vaso, a
transbordar: Excelente of'renda.
O Livro, nas mãos da
Mulher: Esquecimento.
-
*235 A felicidade ao
pavilhão.
Um templário em seu templo.
O mel, ignota floração d'abelhas.
Do cigarro o esparso fumo
de raízes. O leite do etéreo alvíssimo maná imemorial!
-
*236 A avenida
subvertida
por um monótono arrulhar de
pombos. Rouault.
Arrulha, pombo. Ronrona,
gatonço. Interior igual a ontem.
-
*237 Uma cor neutra
das zonas da terra do café,
dos ombros doridos, dos números da fome térrea e cruel.
-
*238 Não me levanto, mas
estou:
Vivo. Completamente omisso
ao 'scuso enredo.
-
*239 Aqui vai meu grito,
meu voto de paz, a um mundo
devassado e em desconstrução.
É tudo quanto o cantor
deseja aos corações.
-
*240 Lede os mistérios
no branco, lereis a
claridade no escuro.
-
*241 Equilíbrio d'asa,
anjo, alma, moça, se refaz,
e mobiliza, da azeda inteireza do acanhado poeta.
-
*242 Sol nulo de após
nocturna chuva.
Estremunhada vigília da
manhã. Alguém, que se me aproxima,
com meigos olhos secos,
poços escancarados.
-
*243 Voo, de ficar.
Raízes nascem das plantas,
contudo quietas.
Os pés assentes sobre o
chão da saudosa desolação.
O ar aberto a o ar!
Muitíssimos, mínimos, pontículos da infinidade.
-
*244 O teu sorriso leva-me
sempre para junto do mar:
Ventre magnífico da noite
genetriz: Lá, onde tudo acaba
e principia, onde da noite
ocorre sempre o claro dia.
-
*245 A tristeza imensa
de estar,
perpassada pelo incerto
rever, em corpo inteiro, em flor de mudez,
o próprio corpo. Na
ausência, algo avoluma a distância,
dá relevo admirável à
montanha, dá olhos para ver claro, dá olhos para ver dentro.
Que haverá, longe ou perto,
que nos destrua o exílio? Tijolos, cimento, o invólucro da solidão sonhada.
Viagens se projectam, sons
se esvaem, árvores nuas, vãos e vãos, crus lençóis de camas sós, lucernas
trémulas.
O prolongar ameno dos
intervalos traduz notícia de um deserto habitado, que meticulosamente
transcrevo.
-
*246 António, o poeta
louco,
ditou-me devagarzinho seus
últimos versos: O governador dos céus estava ali,
e um livro para ascender à
pátria verdadeira. Mil árvores estavam indo p'lo ar.
Os pescadores chegam, de
romagem, pra beijar a mão à Senhora das Naves, que terna embala
ao colo o doce Filho. Os
pássaros nidificam onde nasce a flor:
Flores de ardor, na paz
frágil da donzela. Quero que haja, num reino tão pequeno, paz.
Quando do acontecer da
plena eclosão da Divina Esperança.
-
*247 As várias palavras
dos livros,
entre si, se debatem. As
propriedades dos medicamentos p'lo sangue se m'entrecruzam,
química de sonos. Vivaldi
ou Mozart ecoam, dentre os destroçados intervalos a que se ouvem.
A preto e branco,
precipitam-se apocalípticas imagens de um recomeço.
-
*248 Repousa a casa,
cousa ou asa, repousa qual
lousa igual - firme de cal, lençol de paz.
Paz que faz a paz - próxima
ou distante grande paz. A rosa, alta, ousa do ocaso a mansa luz.
-
*249 Poética própria:
Que as palavras digam as
coisas, frescas, redondas, simples, tais quais são: Coisas a estudar sempre:
Coisas aí mesmo, à mente.
Digam as coisas, fáceis, difíceis, certas, cheias, mesmas, elas, sensíveis,
talqualmente. As devidas
palavras, digam, próprias, as coisas: As sonhadas palavras.
-
*250 Retorno de um tema
antigo:
O instante pleno um: Mesa
de um canto. Um canto claro escuro,
ou um recanto um nada
obscuro. Num instante. Quási nada, num instante.
-
*251 Sortes:
Fui então padrinho do
Zeferino, e minha irmã madrinha. Com os nossos verdes anos
sentíamo-nos investidos de
funções bem altas! Hoje, meu afilhado é engenheiro da Câmara.
Minha irmã partiu, há
tempos, de vez, de um tumor no cérebro. E eu espero a morte, pra me dizerem
poeta.
-
*252 Uns sacerdotes
polacos
trouxeram para Nordeste a
devoção ao Jesus Misericordioso: Ao pé de Coimbra, um desses padres
missionários deu-me um dia
uma boleia e, a despedir-se, uma reprodução de um ícone especial,
que guardei na carteira:
Tinha uma oração do coração: De repeti-la mil vezes adormecia e mil vezes
acordava:
A repetição continuava, como
que submersa, incessante dentro do sono: Era como esperar um golo no último
minuto.
-
*253 Minha mesa de café:
Quero-lhe tanto. A
garrida. Toda de pedra brunida. Que linda e que fresca que é!
Lá tempero a solidão, com o
café do costume. Do cigarro que acendo não mais se lh'apaga o lume.
De falhados todos temos
poesia, morte, instantes. Boa é a pedra que esconde, sob ela, o poeta anónimo,
que escreve e rescreve, pró
esquecimento da vida. E se a bandeja então cai? E se as mesas vão voar?
E se a patroa se despe? E
se o cliente vomita? E se a coisa dá pra o torto? E se a botija rebenta?
E se as cadeiras se voltam?
E se a Cimbali explodir? E se a lâmpada se funde? E se o empregado patina?
E se o cinzeiro se espalha?
E s'empanca a maquineta? E se os bolos espaspalham?
-
*254 Amar a vida inteira,
de uma vez por todas
perdida ou ganha, na torrente de amor, que leva ao mar da vida.
-
*255 Divertimento amargo
de viagens programadas.
P'la longa estrada fora. Comigo acomodado no lugar do morto.
-
*256 Conviemos
em que o falar descaía
inconsequente. Estivemos de acordo em passar p'las brasas.
Quanto ao mais que teríamos
de nosso a acrescentar, já então pouco importava.
-
*257 O livro aberto:
Eterno, do eterno: Tudo, e
sempre! O que pronunciemos de efémero será mais linguarejar do que dizer.
-
*258 Em Teu corpo
transfigurado,
não Te custa andar. Vem, em
Teu passo aéreo, como que voando, a todo o homem sofredor.
Vem, em Tua paz, vem,
Senhor Jesus, e fica connosco, pois anoitece.
Não precisamos de ouvir a
Tua voz ou de pôr a mão como Tomé no coração em chaga, do Teu lado.
Deixas-nos connosco Tua
benção, da forte ternura do perdão.
-
*259 Um canto de terra,
de verdor rejuvenescido, um
canto do caminho que há pra caminhar, com graves mãos
pra toda a vida. De
prosseguir a etérea claridade de ir de encontro às palavras da palavra simples,
de entrever nossa fome de
entranhas luas. Palhaços a ouvir, e a ver, o sino tocar: Dlim, dlão!
-
*260 Toada:
A rede balança: A seiva da
árvore, no vento em que dança: Na verde erva, na aragem,
o corpo que dorme: No
vento, em que dança a seiva da árvore, o corpo repousa: Repousa
e balança, na rede, no ar,
na seiva, no sangue, no sémen, na dança: Ao livre vento descansa.
-
*261 Sento-me na casa
e preciso os pontículos,
mínimos, dos versículos do afazer,
investido do profundo rigor
paciente.
-
*262 Onde em torno a
qualquer mesa se reúne:
João XXIII tinha os olhos
bons, de quem pensa sempre antes de dizer, interiorizando e compre-
endendo das razões do interlocutor.
Mansamente. Com experiência e peso de saborosa sabedoria.
-
*263 O sobrado - agulhas
- sons opacos.
O poeta, pastor d'insólitas
palavras e versos, elucubrando paisagens d'emoção p'los caminhos.
Pesando sílabas, dizendo ou
redizendo, falando de Deus à face da luz, à face dos iguais.
Ângulos de mesas. O pipilar
das negras andorinhas. Vertentes - valados - voos. Um parafuso caindo, seco,
só,
do espesso escuro.
Apodrecer revolto de amargosas entranhas. Algum encanto vegetal de folhas em
leque.
-
*264 Brusca
diafaneidade.
Uma inusitada paz - a um
clarear de vago azul - que aqui entrou não pressentida.
-
*265 Por fim, fomos cair
à entrada do curral,
aos pés do Menino. Era a
Paz e a Luz, do calor do bafo, do estrume
e do esterco dos bons
animais, santos, calmos, mansos, pachorrentos:
Das vacas, das ovelhas, dos
asnos e das mulas.
Vimos então: A maior
maravilha era Ele nascer humílimo e pequenino.
-
*266 Joga-se ténis.
O ploc-ploc do bater nas
bolas, ecoando a ritmo espaçado. O inteiro vazio habita-se-me cá dentro.
Nenhum telefonema nas
imediações. Portas fechadas, contra a rua e seu comércio. Provisões sobem, com
os vizinhos,
p'los elevadores. A
televisão, desligada. Um resto, campestre, de paisagem: Serra, de S. Luís, ao
fundo.
Máquinas arrumadas,
abandono de papeis pousados. Cartas, a ser levadas, a distantes sítios.
Vastos, ermos pousos, de
exílio e migração, com paz quanto baste. Enredada música, do antigo longe de
algum andar.
Sonho embora? Sei-me
sentado, os pés cruzados. Em mim: A teu lado: E este chão.
-
*267 Atravessarei a
noite
desenhado o teu sorriso, na
esperança de rever-te se der por isso.
Assombro - súbito ombro.
Recolhimento - a uma luz difusa, esmaecida.
-
*268 Elle est retrouvée.
Quoi? L'Éternité:
A imagem banal do terror, a
praça, as pessoas pasmadas. Porque acordei no país,
durmo com os mortos, às
centenas especados aí, de pé, a meu lado.
De repente fujo dentro do
fogo. Oh, o número seiscentos e sessenta e seis!
-
*269 É possível que os
gestos
de pessoas uma a uma não
contem já apenas enquanto tais, mas que, quais marionetas,
dizendo palavras duma
palavra, povo emergindo, fluxo, refluxo, nos encontremos.
Necessário é consumir o
violento grito. O que dissermos nos justifica. Os atentados, as fomes,
a violência, os poemas
clamam. Poemas que não perderam ainda, apesar de tudo, o fecundo sentido.
Paulo VI, que trabalha
dezoito horas por dia, ofereceu tabaco a Podgorni, durante uma reunião à mesma
mesa.
Mas há o Vietname, a
electricidade, a guerra química, as marés negras, os refugiados, os
desalojados,
os desempregados, os
perseguidos, os deslocados, os sem abrigo, os arrumadores, o isolamento, o
napalm,
aves e peixes envenenados,
genocídios, do carbono as bombas, estátuas dos dias sem sono, campos minados,
pessoas em cárceres por
ideias ou intenções ou crenças. Entretanto, passar por episódica doença ansiosa
resulta na possibilidade
d'entretenimento, a compensar o demasiado longo silêncio contrariado.
-
*270 Um a um, os poemas,
a Santa Maria de Todo o
Mundo: Ce que j'ai surpassé: Non, rien
de rien: Obscuro esquisso sur carreaux:
Quase nada: Obra acabada.
-
*271 De cansados
fomos ao jardinzinho passar
o fim de tarde:
Tu estavas bonita: O sol
esplendia:
Isto é - e só - narrar.
-
*272 Excerto de ode:
Se os sábios O calarem ou
os políticos O omitirem, as pedras ou os meninos O gritarão!
Loucura para o mundo, para
os doutores, sabedoria dos simples, única medida do humano.
Ser-vos-á servida forte
quantidade, acubulada, repleta, a transbordar.
Ele, que vos fará sentar à
Sua mesa, vos preparará uma última refeição, vos atenderá cuidadoso,
como servo vosso, a vós
seus servos, se O aguardardes vigilantes dos derradeiros dias,
os rins cingidos,
revestidos que sejais do rigorosíssimo traje da compunção.
O sol, largo tempo
continuou esplendendo, todos, mas todos os dias de vossas vidas,
igual pra justos e
injustos. Não é facto que "criastes", artistas, filósofos,
cientistas, economistas,
estudiosos da praxis
política, um mundo ao avesso, um mundo insólito e aberrante,
sufocado pelo
"absoluto" da vossa cultura, em que sim e não se equivalem?
Por processo dialéctico -
"sustentastes" - tudo se ultrapassa:
O Filho do Homem seria um
só dos mais dos revolucionários da história a arquivar:
Se Lhe chamou
"sofista", dentre outros inócuos nomes, um de vós...
E que é daqueles a quem
tratastes de menos que sub homens? Um Brot, um Brot, um Brot!
De profundis clamavi! Do íntimo de mim clamei, Senhor,
redenção.
Donde, o vosso
estranhamento da morte. Um outro tempo, algo de tão natural como respirar.
Miguel, o da resplandecente
espada, trará, reunidas, suas nove coortes de coros celestes,
de Anjos, Arcanjos,
Principados, Virtudes, Potestades, Dominações, Tronos, Querubins e Serafins.
Pedi que essa hora vos não
encontre desprevenidos, ou a caminho, em viagem.
Compreendeis isto? Então
melhor entendereis: Venenos resultarão inofensivos,
venenos, espancamentos,
torturas, epidemias, pestes ou mordeduras de serpentes.
Senhora, fazei de mim,
servo inútil, instrumento da Vossa Paz! Que nossos olhos, rasos
Vos contemplem, ó
Imaculada, Advogada Nossa, que a cada instante os teus velais!
Dos dias da prova nos
abracemos a Teu Filho: Amados do Vosso térreo coração materno, humano
e dorido, sintamos o bater
do Seu, que, com iguais entranhas de desmedido amor, sempre nos ama.
-
*273 Pedro e Celeste:
Estranheza, trânsito, vidas
esquecidas. Trabalhava em lugar frequentado por argelinos e indianos.
O alojamento ficava ali perto
da fábrica. O sol batia a jorros. Havia um hipermercado, pejado de gente,
próximo da estrada. A
cidade, ali ao lado, com confusão, ruído, fumos, radiante néon.
Parques, onde a amenidade
calma sossegava. Lá, travou amizade com um tal Dubsveck,
de origem eslava e infância
amargurada. Regressou meses depois, um dia de arco-íris,
fazendo uma paragem em
Marselha. Logo aí se deteve por seus museus, o cais, a Cannebière:
Na aventura de saber-se
entregue a si. Do escuro a lua caía lindíssima sobre as águas!
Lajes e tabiques davam-lhe
esbatido reflexo de seu melhor tempo. Branda serenidade de ondas!
Mansa ficava a extensa
praia! Como Celeste lhe aparecia obsessivamente viva em sua memória!
-
*274 Dez anos depois:
Restavam casas, labirintos,
santuários, bibliotecas, arquivos, luzeiros, lugares de fascínio e liberdade.
Outros sonhos habitariam
novos entrechos em esboços de romance ou de diários, em infindáveis,
esboçadas, incansáveis
tentativas: Sua inacabada obra! A vida, incansável rio, fluíria, tempo no
tempo, p'las vertentes
do pastoreio. A pouco e
pouco se aproximando ao inevitável desenlace, se acercando da Mão do Eterno
Pai.
-
*275 A cara negra de
óleo
um operário, dentre os
ardentes motores.
-
*276 Rememorando o
Menino
de todas as linguagens e
ubiquidades, que, de brincalhão travesso se fez homenzinho bem comportado,
eternamente novo, sempre
inominável, igual ao Pai e peregrino da eternidade,
que entregou à vida em flor
de todos os renascimentos da contemplação mais pura, despojada, a melhor parte
do que aqui nos coube em
parte, enquanto gastos arrojamos a comum miséria, calada e quotidiana. Se
aniquilou
ao mínimo, piccolo ponto:
Senhor do viçoso coração de Sua Mãe, onde escondido nos tem vivos motivos de
saudades:
Do sol, da água, da paz, do
sono, do sonho, do vinho, do pão, dos amigos, do bom ar, dos entusiasmantes
caminhos.
-
*277 Entre poetas:
Achamo-nos, de cá dos
muros, lembrando, em quase trevas.
Se falamos, sabemo-nos
iguais. Dizemos: Se nos ouvimos, todos nos ouvimos.
Fogo que se ateia e se
resolve, em convulsão, é onde quer que o Espírito sopra.
O corpo dormido, os dedos
pendidos, os quietos joelhos. A segundos fruir tudo, tudo.
Fundas águas,
incessantemente correndo, sob amplas pontes, através.
-
*278 Vi em grupos
crianças,
as batas iguais, as largas
sacas, correndo ou saltitando,
por um campo verdejante.
Iam às aulas ali perto. Longe.
-
*279 Teu nome de éles,
éles, éles -
candura rememorada. Ou
moças dançando obscuros confins.
Antiquíssimo anoitecer por S.
Martinho de Angueira. Telefonam de distantes, ignorados lugarejos.
Algumas palavras, que
ecoam, desvanecendo-se e sumindo-se ininterpretáveis.
-
*280 Todo o bar se
atravessam,
lado a lado, cândidos,
omnipresentes sorrisos.
-
*281 Resquícios, cinza e
uma dor
a regressar. A face
esmagada de inquietude. Mas um sorriso, um leve aceno,
uma cadeira a uma mesa, um
amigo, e tudo enfim incerto aquietar.
Os largos gestos, sem rasto
se entretecendo, sem peso, desprendidos.
-
*282 Quando não,
ao ouvido, como que inútil
lamúria, a amargo soa.
-
*283 Em quieto voo,
lanço o olhar ao mais
perto. Refaço, dos dias do lugar,
cada vez mais, o meu
destino.
-
*284 Um quase nada:
O estado de graça de me ver
suspenso da tarde sonhada.
-
*285 Já aquele dia
liberto
se tornava absoluto,
inteiro de início e aventura.
Bastava-lhe esse tanto.
Tudo se esquecendo. Nada escreveria.
Da casa os vãos do ar
ausente, os vãos do ar de Deus.
-
*286 Carlo e Dora:
Embrenhado em fumos, o
café. Carlo rabiscava uns desenhos. Afinal gostavam ambos
de música, cinema, flores e
iogurtes. Estavam já a despedir-se. Ela levava para o seu quarto aquela só azul
reprodução de Chagall. O
fim de dia moía-os. Então, até amanhã. Pá, que horas tens? Dez. Dez?
-
*287 Partira, manhã cedo.
Sua terra natal, entre árida
e sagrada, acolhia-o a seu regresso,
estendendo-lhe como que um
manto, verde branco, devastado da vastíssima solidão.
Estava a casa vazia, o
quarto nu, o tijolo argamassado, a porta aberta pra o desconhecido.
Ao menos dali avistava-se o
céu somente, sem nuvens a ensombrá-lo.
-
*288 O dinheiro contado.
A mala pesada. A muda de
quarto. Paredes que se apertam, obsessivas. Um cão lá fora.
Abjecção e náusea. A hora
da partida. Cri-cri constante noite dentro. Quilómetros até romper manhã.
Sou a Imaculada Conceição: Figura 'inda iluminada, em um
portal ou quina de antigo solar, a uma lanterna trémula.
-
*289 Pode sair!
O fim de tudo aquilo. Nos
lagos ao Jardim da Estrela, cisnes desmaiando estagnadas, dolentes eternidades.
Lembrava ainda laranjadas
bebidas na cantina do quartel, por Campolide, enquanto, na Tv, nadavam
horríveis peixes,
das profundidades. O
reencontro consigo mesmo. Uma palavra: Que todos sejam um: E uma oração.
Sua tia enfermeira
carregara uma imensidade de roupa da Alemanha.
-
*290 Celeste tomara
conta da sua vida
como de uma verdade total:
Seus só lhe restavam os sonhos: Aí, em margens livres,
esvoaçavam aves feridas:
Deslizavam férreos comboios: Irrompiam, de altas penedias, claras
cascatas de precipitar-se:
Surgiam labirintos, de cidades nunca vistas, destroçadas, em que se perdia
e se reencontrava:
Cataclismos, desabamentos, conflagrações, reuniões, debates, tiradas de árias
de ópera,
políticas quezílias,
confusões, discussões familiares temperando mortos tédios, distantes dramas
pessoais
a nova luz sondados,
escritos evocados e elaborados mentalmente, surtos versos repentinos logo
esquecidos,
inéditos e inéditos,
rabiscos, exames, naturezas mortas, desérticos, extáticos horizontes de
piscinas e plenitude:
Até ao balbuciar do
dulcíssimo nome de Jesus: Tudo s'entrecortando de canções submersas,
que, do transístor,
resultavam irreais, mesclando-se a bocados de redondas frases soltas da
locutora.
-
*291 Té Santa Clara,
além ar:
Dissera-lhe Manuel: A graça
faz-nos ver, a graça ou seus anjos súbitos nas antemanhãs:
Obstinar-se a todos os
rumos: Investir, olhos ao futuro, as possíveis direcções.
Oh, as horas de ponta na
cidade! Mergulhar no fenómeno humano, o corpo leve, ascendendo em pó,
neblina e esperança,
caminhando, na direcção do poente, ao lado de lá da ponte, o lado distante e
claro,
a emergir dentre caóticos
destroços. Forçoso arrancar do grisu de ferros e negrura bairros inteiros de
tristeza.
-
*292 O entardecer nas
árvores
da verde inquietante
Primavera. Suavidade no chinfrim dos pássaros, em intérmina, angelical melodia,
antecipando saudades de
algo de melhor e mais pleno. Num café, ou bar, acaso tirado
de algum romance de
Pratolini, uma jovem mulher ingeria uma bebida escura.
Pedro vivia a serenidade de
um outro dia. Passara tempo sobre tempo. Era altura de dizer "era uma
vez":
Reclamar o passado pra o
passado. As palavras realizavam o que todos sabiam desperdício do silêncio
ou submersa voz do coração.
A não ser que a sua revelação se desse de tal modo solta,
que assim rebentassem,
claríssimas, de incontido ímpeto:
A pastorinha veio às
flores.
Encontrou um elefante,
malmequeres, papoilas, pombas brancas, andorinhas, gaivotas, borboletas.
A pastorinha, de cara
preta.
Lua. Mar. Sonho estar
sempre contigo. Penso em teu amor por mim. Sonho estar contigo.
Desejo paz a todo o mundo:
Amor, paz e concórdia a toda a terra.
-
*293 Hoje o grande,
fundo dia,
que abre a flor da neve na
noite de te ver.
-
*294 Gosto da noite por
sobre automóveis,
noite orvalhada, em aço e
fumo.
-
*295 É na vida
de viver que se vive a vida
dura.
-
*296 O que te resta:
Fixares-te, ateres-te:
Ateres-te, fixares-te: Ansiares perfeitamente:
Saberes, exactamente agora,
quanto é claro.
-
*297 Homem de água és:
Mergulhas, sob chuva, na
leveza da tua cama: Na plena liquidez em água te orientas para os aquáticos
deva-
neios da noite: Te
dissolves nas palavras água, que fluem em teu afã mais íntimo, por dentro do
escuro sono.
-
*298 Anónimo, escrevo
fim:
E inicio, sem querer, novo
poema.
-
*299 Uma coisa em que
cismo:
O bom Deus está em cada um,
quando cada um está com o bom Deus.
-
*300 Scherzo:
Dêem-me a água e o negro
café de após sono. Dêem-me música, que m'intervale os goles
bebidos e as baforadas de
fumo, que entrementes se m'engolfam pulmões dentro.
Café, água, música,
cigarros, e, claro está, a minha mesa de canto.
Por favor, com este calor,
não se esqueçam de ligar a ventoinha.
Aqui respiro o meu ar, com
o ar do meu cigarro, de raízes minhas, que também vivo no pó.
Ah, o egoísmo natural de
ser-se a si próprio como vento ou chuva.
O natural egoísmo de
fruir-se pura e simplesmente. Não me puxem para trás a cadeira
enquanto me sento.
Convenhamos em que tais brincadeiras, de absoluto mau gosto,
só cabem em certas fitas. O
resto está certo: Certo como a morte ou como a força da vida!
Certo como a liberdade, o
amor ou a graça! As contas ficam em dia
logo que acabe a leitura do
periódico e diga obrigado no acto último de pagar o exacto preço.
-
*301 P'lo céu aberto
dê entrada o Filho do
Homem. Já a seara 'stá pronta,
para a ceifa. Senhor,
lembrai-Vos do vosso povo,
pois o conduziste do
desespero do deserto. Lembrai-Vos de quantos
saíram por Vossa mão da
dura tribulação passada. No instante final sejamos salvos.
Que Tu, Maria, boa Mãe, nos
encaminhes ao Trono da Graça:
Lá, onde nos abrace, de
toda a maior bondade, a Divina Misericórdia.
-
*302 A última universal
bandeira:
Embebida do sangue dos
inumeráveis mártires, esvoaçando livre ao vento que sopra dos últimos
bombardeamentos, nas mãos
das crianças sobreviventes, rubra e branca, imensamente branca,
da brancura da pomba da
Paz, iluminada como Maria, alta, bem alta até ao mais alto dos cimos, pairando
na aureolar plenitude,
alçam-se, nela inscritos, verde V de vitória, gloriosa Cruz, Estrela d'oiro de
David,
Candelabro perdido do
Templo, Arca da Aliança, Graal da demanda, mínimo Seixo e rubro Coração,
símbolo consabido da
verdade libérrima do Amor.
-
*303 Ver à força de hoje
a clareza de um dia
ascendendo até mais não.
-
*304 Rumor resíduo do
dia inextinguido -
Charlie Bird Parker -
a brancura da tua boca -
o arrefecer do sangue -
haustos de fremir ar livre
-
a loucura é ver.
-
*305 Balbúrdia e alarido
de crianças
sobrepondo-se a rostos
cinza. Perturbadora moínha de gritaria.
Não atingindo a crueza, um
quê que cai, e em falso. Absurdamente, na tarde incerta.
-
*306 Senhora do grande
livro,
guarda-nos contigo, em tua
mão. Lê, esquece e esclarece nosso incerto sentido último,
e nosso passo a passo, dia
a dia. Que à tua protecção de Mãe nos acolhemos.
-
*307 Pálida luna,
ao menos por ora não nos
aclares o ainda desfigurado rosto até ao desmaio da cinza que a morte é.
Deixa-nos ficar a sonhar
com o estreitar do verdadeiro abraço da terra, a então amante única, e
fidelíssima.
-
*308 Pedras sobre pedras,
sobre os dias de falta de
ar - árvores magríssimas, arranhões, crueza, fome,
névoa ou atravessar de
frieza. Impossível cantar senão após árdua jornada de trabalho.
-
*309 À indiferença da
rua,
um nome abominado duma
montra. Vou gritando,
o olhar varado
d'impassíveis turvas caras, uma forte palavra de liberdade.
-
*310 Que não esqueço
mais
aqueles amigos
desconhecidos: Vieram a minha casa fazer um telefonema a uma hora
a que os cafés fechavam:
Tinham pressa e queriam pagar o telefonema: Entraram e saíram.
Entraram e saíram. Mas
guardem vosso dinheiro! Reflexo de um mundo a aproximar entre múltiplos de
mil.
Não será que o direito à
respiração se nos dá? Forçoso renascer de aproximações, dentre os escombros!
-
*311 Sei de inúmeros
sítios onde vermo-nos,
e, porque aqui, ante o
mesmo portão, às mesmas canções ausência, da tua ausência inexistência,
ou ante os muros, onde
crianças rabiscam a palavra pião com as letras ao contrário: OÃIP -
nós, Mulher-Mãe, sabemos - e há as mesmas brincadeiras da
incomunicabilidade diária, um trabalho que cansa,
ainda antes de ser trabalho
- sei - e, a este escurecer, digo-te que, absurdamente, não estás. A uma
infinidade de tiques,
ao horizonte abismado do
horror, às errantes recordações - imagem exacta de exílio - sei - de portas de
janelas,
de brancuras mar - nós,
Mulher-Mãe, sabemos - de aborrecedores holofotes, da exacta localização, em
carta,
de pouquíssimas,
equilibradas, aéreas, alucinantes construções de jovens alegres arquitectos.
-
*312 Fincarem-se unhas à
pedra.
O papelão é belo, tanto,
quase, quanto o pão.
-
*313 O espaço à medida
dos olhos a chamar-te.
À medida dos braços para
ti. A palavra à medida do teu nome, a reclamar-te, reclamar-te.
Esse teu nome à largura do
jornal clama as notícias que lês, todas as notícias.
-
*314 Móbil de vazio,
apenas corro. Com os meus,
muitos gestos se m'entrecruzam inconsequentes.
Da desconexão, instantes de
instantes se m'entrecortam a mim, um igual aos que,
da submersão, acaso vêem o rigor
de dar-se, nascer, conhecer.
-
*315 Fixar sem ver:
Ficar à espera. Encandeado
o olhar, cambiar palavras.
Tudo de tudo, em toda a
parte, tu.
-
*316 Além da obsessão
dos tiques controlados, uma
catedral, verticalmente:
As cordas fibras da
guitarra, a traduzir a opressão, a náusea, a veemente paixão:
Travessas paralelas: Da
envolvência arbórea a frescura orvalhada.
-
*317 Dás-me a tua mão
aberta,
aquele teu florido
sortilégio de ontem e aquela foto emoldurada
em que estás a gritar a
vida inteira.
-
*318 Tua face nua,
aos números cruéis.
-
*319 Convenhamos em que
é verdade a 'scusa prisca.
-
*320 Um fim de tarde,
na praia, uma mulher
falou-lhe, o cântaro descansando na anca,
a exagerar sua postura,
tristemente. Uma ideia às vezes atormenta.
Um compartimento a média
luz, uma cama ou um divã, um estreito quarto.
- Mas deixem-me dormir!
-
*321 As voltas que dê
lembra-me a rua,
vago correr de pedras.
Gaivotas perdidas ao rio. Conheceres-te um e insectos em desvario.
Que quero eu debaixo do
chão? O peso, o poço, a graça, o nome, a senha, e esquecer.
Conversas ciciadas, teu
natal. Amores entretecidos, breves. Crianças rindo, terríveis aos ouvidos.
-
*322 Meus amigos, não me
sabeis o nome,
mas alguém me conhece, que
não eu.
-
*323 A afronta das
sombras,
bloqueio e imobilidade.
-
*324 Revolto recomeço do
ciclo migratório,
que aqui sou. Voo e fico,
ao mesmo tempo, de enlevado.
-
*325 Tépida Primavera.
Saíra de casa. Estrada
fora, o sol cantava. Trauteava um fundo enternecido de Granados. Que bom
ter tempo livre! Não ter de
que pensar. Que desejaria de maior? Água só, água de pedras, terra, areal,
fundas profundas, saibro,
água de vertigens de abismos. Doía, entretanto, a evidente ausência de
sorrisos.
-
*326 Luz esbatendo-se:
Entre cerveja e música,
enredos de nada. Tal qual Ruy, o poeta póstumo, sofro tanto tempo gasto!
Embora pareça absurdo,
gosta-se do tempo gasto. Uma saudade. Um apelo leve para a indecisa lonjura.
Um apelo íntimo, familiar,
para o além, montanha ou ar, lua ou ribeira, areal ou bruma, névoa ou raiar da
claridade.
Um vontade de partir, uma
vontade de ficar. Uma vontade de melhor, de mais dentro e de mais brando.
-
*327 Do Oriente, uma
estrela:
Seguiam-na uns pastores que
logo se deslumbram da maravilha:
Um recém-nascido, rescendente
de terra, rodeado dos pais e de animais, pacíficos e lentos:
Fez-se então doirado
silêncio.
-
*328 Eis-me só e nu,
neste lugar sombra a que
recolho. Deixo os sonhos ao distante azul do teu olhar -
ou aos muros - do papel -
em que do mínimo poemeto o preciso termo anoto.
-
*329 Alheio a idas e
vindas,
a subidas ou descidas do
elevador, preocupa-me a interrupção do itinerário das moscas.
Hábil, o gato as apanha e
come aos pulos p'lo ar.
À deriva do aparo, que
desliza segredos de estar, descrevo trajectórias de aquém eu.
Já a sólida cadeira me
situa sentados meus 99 Kg.
-
*330 Absoluto de
plenitude e solidão,
os dizeres mesmos, que mais
e mais se interiorizam, à nascente fecunda donde procedem.
Plena vida, na meia tarde.
Anoitecendo-nos pouco a pouco, na varanda ou lá pra lá.
-
*331 A poesia da relva,
onde se distendem corpos
enamorados.
Só o cantor chora e canta a
um tempo, anónimo fauno emocionado.
-
*332 Maria, Rainha da
Paz,
acompanha-nos a Teu Filho.
Acompanha-nos à pátria verdadeira.
Porque nós não somos deste
mundo. Estamos cá, mas o certo é que de cá não somos.
Somos d'Aquele, que o mundo
rejeitou, como a nós rejeita. Aquele que nos amou
e que, no oportuno tempo,
Se revelou e nos deu Vida, pois à Sua mais viva Vida nos arrebatou.
Contra todas as vãs razões
com que nos queiram prender, nós somos d'Ele:
Que, porque Caminho,
Verdade Eterna de Amigo, fiéis seguimos.
-
*333 À Foz do Arelho,
Joseph.
O ancestral trabalho
adiante, de longíssimo.
Grave nome de luta consigo
traz, que lembra, e só, enquanto há paz.
-
*334 Ainda aí a guitarra
ferindo,
entretecendo, rasgando e
redizendo o puro espanto,
ao esclarecer da agora
outra amplíssima madrugada.
-
*335 Um voto de Natal:
Que esse menino nascido
pobre seja paz,
dentro do teu coração, onde
de Deus inteira a paz se faz.
-
*336 Repuxo
que teima em subir contra o
tempo, que o atira alto. Constantemente o obriga a recair a si.
-
*337 Não digas nada.
Deixa-te estar. Que Deus é
grande.
-
*338 Se é
plena, e terna, a
claridade, a luz amena.
-
*339 Corre o vento, e
vem até aqui.
Corre o vento, e fica
dentro em mim. Bem podes correr, vento
da minha não aventura. Bem
podes anunciar-me o lugar.
Pois aqui sopras, vento de
minha precária estadia.
Abro-te todas as portas, ar
que a vida me dá.
Nenhum obstáculo te detém.
Transportas-me, nuvem, à praça do sonho.
Onde a casa perdida me
visitas, brisa, aragem de meus dias.
Vento dos ligeiros sustos,
pudesse eu fazer, contigo, o único último poema.
Porque 'ora corres longe,
vento livre da frolida e árdua liberdade?
-
*340 O vale de Deus
me abrigue e silencie, e em
tempo me deixe a mim entregue. Pra que, tarda,
a morte me aconteça como a
qualquer um dos mais que, certos, pouco a pouco,
finalmente de enfados
aliviados, entram, com suas tendas, ou almas, porta dentro.
-
*341 Sebastião: Ínclito
Cavaleiro do português Graal,
como não reviverás, se, em
cada um de nós, connosco ressuscitas?
Quando voltarão, em pó e
revoada, alas e frentes de teu nóvel exército,
adolescente rei quase
Messias? Do sonho da névoa em breve te reergas, uno de muitos, Portugal!
Enfim alçada em firme mão,
voe alada e louca a Universal Bandeira!
-
*342 Cá dentro
o absoluto silêncio se
adensa, em seu leve peso ténue e pacificador.
-
*343 Oxalá algum dia
saboreemos, pronunciemos e proclamemos
o suavíssimo, por ora ignoto, nome de paz.
-
*344 Aqui fico,
moro, morro, vivo e revivo,
rodeado da Festa: Do ardor do fogo comovido.
-
*345 Luna madre,
recôndita face, velada e
escondida.
-
*346 Tarde sentada,
sossegada:
Folheiam-se velhos in-fólios.
Latente vida irrompe e
grita fortemente das amareladas folhas.
-
*347 Há as mãos a erguer.
Há que adormecer e
esquecer. Que trabalhar e ser.
-
*348 Que não seja senão,
todo teu,
tua simplissíssima oração,
Maria, Boa Mãe.
-
*349 Fumando,
Deus perdoe, abrevio a
viagem da cantiga.
-
*350 1º de Maio:
De rosas de suor o canto de
alguém do trabalho.
Rosas breves, de recôndito
perfume.
-
*351 Filosofia:
O mais para lá para o outro
ou ao olhar do outro. O que, envolto a mi'.
-
*352 Obrigado,
Senhora das noites e dos
sonhos, subterrâneo desvelar de mim, númen meu, Companheira
e Vigia constante da
sombra, Inominável!
-
*353 Sei da lonjura da
estrela
a que acedi da infância.
Sei da palavra que me deste a dar, polpa de fruto. Sei de quanto
essa palavra doo a outrem.
De quanto sei construo o poema da firmeza confiante da alegria,
meio submerso no infindo
zum-zum do tráfego, que mais e mais se adensa, e eclode, amplo e forte.
-
*354 Vá alguém suster os
alados cavalos,
que, da madrugada longe,
donde procedem,
pletóricos de força,
selvagens se soltam, galopantes!
-
*355 A Vanicelos:
Ao eco ou sussurro do
vento, brilha vibrantemente
o verde tenro das
pequeninas florinhas assoleadas.
-
*356 Camões:
A terra, a monte,
desenha-me a ilusão dum rosto, serena e plena coincidência entre noite e morte.
-
*357 Adenda:
Do que ficou de mim, aqui
se me releva a viva impressão de um tosco rosto,
esplender da feliz
coincidência entre noite, amor e morte, bondade, tempo e eternidade.
-
*358 Astronomia:
Olhando o ar é que nos
temos a nós: Estrelas, distância d'espelhos de olhos d'alma,
em vosso fulgor desmedido
nos abismamos.
-
*359 Do todo envolto em
que estou,
da imensa claridade a
evidência: Gratuita se me dá.
-
*360 Senhor da firmeza
da invencível paz,
toma-me conTigo o corpo ao
colo, enquanto parte do Teu corpo glorioso.
Deixa-me participar de Tua
beleza muda a meu olhar. É suave de repouso Teu puro, meigo olhar.
Tu és, vitorioso, o Cristo
de todos os povos. Tua face preenche todos os lugares:
Faz diferentes e
imensíssimas as mais desvairadas paragens.
-
*361 Affiche:
A arte está de novo a 36
Km/h.
-
*362 Das aulas os
redutores raciocínios
definidos e
curto-circuitados ou, diversamente,
as longas navegações do
vago divagar libérrimo.
-
*363 Em Tavira os tontos
olhos
na branca brandura da
esplendente cal.
Verdadeiramente excessivas as
claridades do sul.
-
-
II) na morte
do Senhor Trabalho
*364 Entremez, de acto
único,
com as seguintes
personagens:
Senhor Trabalho, morto de trabalho.
Padre Água, habitué de semelhantes ocasiões.
Dona Morte, então quase feliz.
Dom Plim, mais conhecido por Dom Dinheiro.
Dona Amorosa, viúva do Senhor Trabalho,
desconsoladamente divagando, em lunares lucubrações.
Dona Saúde, sempre de boa disposição, graças a
Deus.
Dona Bizarria, mais caída em graça do que
engraçada.
Bambino Jardim, dilecto filho de Dona Amorosa
e Senhor Trabalho, criança filósofa, super-pasmada de estranha.
Algum Público, que a tudo assiste.
Adereços cénicos:
Uma cruz: Um livro aberto:
Uma espécie de mesa, ou altar:
Articulação, de madeira ou
aço, onde jaz, cadáver, o Senhor Trabalho.
Do rosto gasto de
Trabalho parece surtir enigmaticamente um sorriso idiota de vaga imobilidade.
Dito o "Ite Missa
est",
PADRE ÁGUA, encetando breve prelecção aos
presentes,
dirige-lhes palavra que
pretende de conforto:
Tem agora este bom homem,
de nome Trabalho, concluído o breve curso de seus dias,
idos dias esses, em que
sempre achou refrigério nos braços sossegados de Dª. Amorosa.
Houve por bem Dª. Irmã
Morte o visitar.
Transportá-lo-emos daqui a
incerta paragem, tão incerta quanto definitiva, na certeza de que,
se sempre Senhor Trabalho
contou com o amor e o desvelo de Dª. Amorosa, esse amor o assiste à presente
hora.
A vida continua e o bambino
Jardim aí está, prestes a suceder-lhe à frente da empresa por ele inaugurada.
Certo se desfará em zelos e
zelos, sob a sombra benigna da mão de Dª. Amorosa, mãe e cúmulo de atenção.
Também a generosa ajuda de
Dom Plim não faltará, como até aqui jamais faltou, ao nosso bambino,
a quem ri, a olhos vistos,
um futuro promissor.
Nos declives da sua já
longa vida, reiniciam-se, para Dª. Amorosa, novas primaveras,
apenas magoadas da dolorida
saudade.
DONA AMOROSA, como que falando só:
Pobre Trabalho meu,
conheci-te como ninguém mais deste mundo te conheceu. Sempre trabalhaste.
Até porque nunca soubeste
fazer coisa nenhuma. E terminaste. Vais já avoando, nos braços de Dª. Morte,
com ela, a quem sempre
desejaste mais do que a mim, por quem sempre suspiraste,
em tuas provas, canseiras e
enfados.
DONA MORTE, como que murmurando entre
dentes atrapalhadas rezas:
Tens-me contigo agora em
meu abraço, rico Trabalho, és o que sempre foste: Um bom e pobre diabo!
Ninguém nunca te viu melhor
do que eu agora.
Olhando para o ar atordoado
do teu menino dou conta do reflexo, ou marca repetida,
do teu riso idiota, ingénuo
e parvo.
DOM PLIM, em suspiros e ais:
Embora nunca tivéssemos
sido grandes amigos, custearei de bom grado teu ofício final,
na passagem, que ora levas,
desta pra melhor.
Revejo com saudosa mágoa as
tardes solarengas em que te requebravas com Dª. Amorosa e seus enredos
na Vivenda Felicidade, sob
latadas de vides, acompanhados das meninas dos vossos olhos, o irrequieto
Jardinzinho,
ali à Rua da Ilusão, número
um.
Até as viçosas ramas das
acácias, lá próximas, dançavam, com os vossos suavíssimos entardeceres!
Agora tens paga tanta
quanta ao teu tamanho devida, agora terás conta certa, de sete palmos medida.
Ai, amigo! Ai, Trabalho!
Ai, companheiro!
Deixa lá, não te rales,
pois não mais vais ter de repetir antigas adições com as aproximações do fim do
mês!
Bons sonhos, caro! Que os
melhores devaneios te alimentem a estada.
De novo, DONA MORTE,
gemendo e suspirando, como que em desatino:
Tanto te amei, tanto te
desejei em meus braços, puro aconchego.
Mas tu eras feito do meu
oposto - todo vida - e sempre, sempre escapavas a meus quereres.
Eras vida, vida indetível.
Mas paraste. Ontem. E
deste-me de tua noite.
Tens os aprontos todos para
um lindo enterro!
Descanses pois. Linda
manhã, sã Primavera!
Bambino Jardim, repete lá
uma das tuas rezas, das que aprendeste na catequese, mas em voz alta e clara,
que eu quero ouvir, por
alma de teu pai, o bom Trabalho! Mas uma reza que lhe dê proveito farto!
À boca de cena, para o
vago, BAMBINO JARDIM:
Morte a todos igualha.
Nenhum trabalho a vence.
Nenhum dinheiro a compra.
Vida bem amada, melhor
sabedoria!
Pe. Água, a vossa benção,
meu padre, meu bom pai!
Soluçando, repete
perdendo-se num desastre: Trabalho merece repouso, trabalho merece repouso.
DONA SAÚDE, avançando a curtos
estremecimentos de passinhos ágeis:
Trabalho, Trabalho, alegre
companheiro, tanta vez de mim lembrado!
Dizias tu: Bom sono, bom
afazer, melhor comer e melhor amar!
Que mais querias?
Se sempre da melhor sorte
tiveste!
Em tudo fizeste o que
quiseste, e não morreste de nada ruim, nem sequer te cortaram
ou te retalharam ou te
esfaquearam! Na morte, de quem dorme fundo, adormeceste:
Trabalha, Trabalho, que
trabalhar dá saúde! Não era esse o teu dito de sempre? Não era esse teu lema,
e até teu grave ponto de
honra? Nem sequer precisaste de gozar de uma reforma.
Farás nascer e crescer,
revivo em Algeruz, plurais ervinhas. Que, delas, se faça farto chá!
Agaiatada, DONA BIZARRIA:
Já dançaste, até cair para
o lado, a tua dança de moço? Tu, que andavas como quem dança,
nem precisavas de um
grãozinho na asa para te espalhares lindo, ao comprido, p'las ruas fora, p'las
largas praças,
p'los amplos salões
engalanados! Bailarins inseparáveis, que nós fomos!
Mas tão sem jeito ficas,
não sei por que carga d'água continuas rindo, tão cheio estás de tal não
presta!
Saboreia, então, da
derradeira paz!
Final: Com Mozart em
fundo, em jeito de minuete:
OS ACTORES, em coro:
Adeus, adeus, penoso
trabalho, adeus!
Adeus, amado trabalho!
Votos de bom trabalho!
OS ACTORES, ainda em coro, mais ALGUM
PÚBLICO:
Votos de bom trabalho!
Porque trabalhar sempre
educa!
Aparte de DOM PLIM:
Porfiai, porfiai, que a
quem porfia Deus dará.
Pois mereceis justa paga, pois
bem mereceis a justa paga. Alguém vos dará da justa paga,
alguém vos dará a justa
paga. Ou eu não seja eu: Um acabado exímio, encantado da vida,
feliz e descontraído,
transbordando estupidez natural, capaz de redonda cambalhota.
Cai súbito o pano, enquanto
vão desvanecendo-se os acordes dos sons Mozart,
de modo que,
entrementes, fenece o entremez.
-
-
III) 31
poemas do novo milénio
*365 Redonda como um ovo,
a formosa lua,
repousando plena,
no zénite do horizonte.
-
*366 Presa ao corrimão
da escada,
a bicicleta do sonho:
Nela galgo longe
degraus e patins,
milhentos andares.
-
*367 A mesa
da água e do quente café:
Repouso do movimento:
Sobre ela, dos versos
acrescem motivos.
-
*368 Cinzeiro,
das cinzas das ervas dos
fumos:
Quedo se enche fundo
dos restos do ar.
-
*369 Radiozinho
dos sons, das vozes,
das luas: Beijos a ouvidos,
que atentos auscultam.
-
*370 Esferográfica
dos riscos, que sobre o
plano
deslizam: Eclosão da
verdade,
que preenche a luz.
-
*371 Moedas esquecidas
dum troco distante:
A que jazem aí, se ao mundo
devidas?
-
*372 Gentes,
que irrompendo, a entrada
perpassam:
Que amam distantes do dia
'inda incerto?
-
*373 A hora entreaberta,
se tange o que falta à
total plenitude.
-
*374 A planta
escondida, que sobe do
húmus.
Tão pouco, e tão tanto, que
teima em crescer.
-
*375 A espada
do espírito da palavra
inflamada.
Recolhe-se o verso, relê-se
o poema, confluem, da vida,
os 'sgarrados caminhos.
Acertam-se os passos,
e, enfim, d'expectantes,
damos connosco no agora.
-
*376 Da porta
a passagem, que dá para o
nada:
O nada, que é tudo, do que
hoje 'inda é vão.
-
*377 Entrada
por qu'irrompe
o humano sentir:
Aberta à manhã.
Anelam os olhos:
Alumbra-se o olhar:
Ora o coração.
-
*378 Toda plena,
ó Maria, Teu Filho nos
trazes. Se nEle
só somos, Teus somos Teus
sonhos.
-
*379 Envolvente capote
que o corpo m'abrigas,
agasalha-lhe
a alma qu'í habita, 'inda
fria:
Leva-me p'lo dia outro, até
onde morra.
-
*380 Seja 'inda véspera
de maior novidade.
Encete-se
caminho, de regresso, ou
partida.
-
*381 Ramerrão
d'automóveis, por vários
sentidos:
Que último horizonte, sem
querer, prosseguis?
-
*382 Retorno do pão,
da palavra, e da paz:
Harmonia
de dedos: Forte sabor a
verdade.
Inteira verdade,
submersa e amável.
-
*383 Óculos
de ver perto: As luzentes
evidências a mim
s'imprimam,
a que me mova, de novo
ânimo,
ante o fluente acontecer.
-
*384 Olhos
de ver longe, as opacas
barreiras deixai se desmoronarem,
vos envolvam distâncias,
que, a longe, a si, clamam.
-
*385 Sonhos de ar
de meu olhar: Das aéreas
nuvens abandonado, o azul
atenue tua ténue substância
d'alma alada.
-
*386 Botas do meu
encantamento,
a corridas novas me levai!
Corram,
com o vento, tuas solas
gastas,
que o vento só os
atacadores não desaperta.
-
*387 Isqueiro da breve
chama,
disparada pela chispa, que,
de repentina, crispa a flor da baça luz
do magoado, transeunte
olhar: Nele ateia a labareda eterna
do novo sol, que vença,
dentro, a teimosa noite escura.
-
*388 Volante cachecol
dos turbilhões do vento,
aconchega-me a rouca voz -
e aos caminhos da vida -
com teu jeito, ou breve toque de improviso,
empurra-me, anima-me,
acompanha-me.
-
*389 Fio de meus óculos,
libertas-me prá lonjura. As
lentes, um tudo nada
abaixo do nó de gravata,
deixas dependuradas.
Suspende também quanto em
mim pese o que ao perto está:
Deixa-me a que voe, a além
mais.
-
*390 Relógio fixo ao
pulso
do meu desalento, faz com
que pronto
esqueça teu mostrador de
inexoráveis marcas:
Atenua e abranda tua voz e
tua cor:
Mas me alerta a que,
aquando da boçal miséria,
de desperto me reerga, e
mãos em flor levante.
-
*391 Minha cruz,
do meu contentamento, ao
alargado amanhã
me transportes ledo o
coração.
-
*392 Janela:
Estou dentro e fora.
-
*393 Família:
Dos mais fortes laços, os
primeiros elos,
os primeiros e mais fundos
alicerces, fundamentos
de amorosíssima ponte para
o humano mundo.
-
*394 Berço, casa, pátria:
O lugar onde acordei
e insciente vivo. Onde me
morro hoje.
-
*395 Alguns dos lugares
do ténue, quão brevíssimo,
curso dos dias:
Cerejais: Coração do NE: Coroação da vida: O
avô tinha seus criados, exímios cavaleiros.
Alfândega da Fé: Cais do definitivo começo, donde
parti, um longe dia.
Balsemão: Um fidelíssimo Amigo aí estava.
Bensaúde: Água, de longínqua memória.
Cardanha e Estevais: Fragas d'altos tojos.
San Martino: De los raros cangarêgos.
Freixo de Espada-à-Cinta: Remoídas lembranças,
d'inacessíveis romanças.
Bragança, do Fervença: Torre alteada da menagem, da
antiga glória de heróis e santos.
Barcelos: Me embarque outro outra vez por esse
rio fora, dos primeiros versos,
sereníssimo Cávado, rio de
penas.
Braga: E à luta da praça nos convocas.
Coimbra: Porque esqueceste, largo e rua da
irmanada canção?
Lisboa: Do que trouxeram caravelas, fumo e
nada.
Setúbal: Prisão refúgio dos parcos dias, da
gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
Algarve: E a ver mundos abalamos.
Madeira: Flores Páscoas, p'la Navidade!
Açores: Cantai-me, cantai-me de vossos
claros cantos das saudades novas!
-
-
IV) estações
do peregrino
*396 Estações:
Bat Yam: E acordaram-se-nos os olhos pó.
Jaffa: Às portas da Terra da Promessa.
Cesareia: Romanos, lusos, ameríndios,
indianos, etíopes, eslavos, arménios, croatas, gregos, hebreus, asiáticos,
árabes.
Haifa: Aí, à cor irreal, dormimos
acordados.
Monte Carmelo: Os olhos prenhes da força do
Sopro.
Stella Maris: Que era de Iahweh a voz que move.
S. João de Acre: A longe nos levavas.
Tiberíades: Da faina da pesca nos erguemos:
Passavas, e seguimos-Te.
Monte das Bem
Aventuranças: Nova
Palavra em nós nascia, jorrava, estremecia.
Igreja da Multiplicação: Tu, impossível milagre, que
estavas dentro de cada um, movendo e interpelando.
Cafarnaúm: O frémito que se soltou em Tua
viva voz porque não removeu desde logo
os humanos dos surdos ecos?
Casa de S. Pedro: Mas connosco continuavas.
Mar da Galileia: Nas lides escondidas nos calámos.
Dabourieh: E, suspenso em ar, 'inda Te
erguias.
Tabor: Até tangermos e fremirmos do
Inominável.
Canaã: Água e vinho, teu sangue nosso,
vivos convivas da Tua santa alegria.
Nazaré: Quotidiano escondido, de aí
estares.
Basílica da Natividade: Porque desceste, pra ficares no
meio de nós.
Jericó: Onde o estranho era Irmão.
Qumram: E registos sobre registos Se
fixaram.
Jerusalém: Um palestiniano, passeando e
assoando-se, à diurna luz da plena paz.
Até que acordássemos de vez
'a novo Templo.
Muro das Lamentações: Pesada era a memória e a prova da
memória.
Sant'Ana: A Mulher-Mãe, Mãe de tua Mãe, Avó,
legenda.
Piscina Probática: Esquecidos em nosso pecado, longo
tempo esperámos nos soerguesses.
Via Sacra: Com a marca da Tua dor em Ti
morremos.
Santo Sepulcro: Pra ConTigo a fundo descermos e,
em Ti, revivos nos reerguermos.
Ein Karen: Até nossa mão tocar o bastão de
arrimo e de jornada.
Monte das Oliveiras: ConTigo chorámos em agonia 'o
desígnio do Pai.
Local da Ascensão: E regressámos a de aonde viéramos.
Pai Nosso: Éramos agora outros ao olhar do
outro.
Dominus Flevit: Estávamos entregues na Tua mão,
protegidos e amados.
Agonia: Da repetida prova, desentranhavas
do amor maior.
Horto de Getsemani: Tudo anteviste, por isso Te
entregaste e Te deixaste matar.
Monte Sião: Para o reacender das madrugadas.
Cenáculo: Juntos, com Maria, nos demos ao
alento de Teu 'Sprito.
Túmulo do Rei David: E acordávamos novos entre sombra e
luz.
Dormição: Toda a tua noite, Maria, alumbras
da Palavra.
Belém: Era tão só crer, ao cintilar da
Estrela.
Yad Vashen: Donde, do que se fez memória em
nós caímos. E nos levantámos dos escombros.
Até haver Manhã.
-
*397 Estações
revisitadas:
Tel Aviv: Afazeres da Pátria Universal...
Que reza teu passaporte?
Cesareia: Quando nos sentávamos a ver no que
dava,
partiam de volta com seus
adereços aviados os viajados saltimbancos.
Haifa: Na aberta imensidade, a maior
grandeza d'alma,
suspensa d'ânsia, mas a
olhos dada.
Lançado a longe o olhar,
todo o Imenso envolve ambas
as meninas d'olhos,
devolvidas ao claro do
nosso íntimo sonho.
Ao Monte Carmelo: A subterrânea Eucaristia.
A S. João de Acre: 'Inda mais largo era o voo,
d'entre Haifa e Líbano, por onde o alto cedro, do caminho.
Tíberíades: Onde descalços pisamos as pedras,
húmidas,
do manso lago do poema,
dormente dorso de vagas e
embarcações, atravessadas de memória.
Bem-Aventuranças: Ecoa ainda, nossa e Tua, a divina
Palavra.
A Cafarnaúm - onde rezaste - e anteviste ruína.
Primado: Do Pedro da pedra que pisaram
fundantes os pés primeiros alados da Notícia Boa.
Galileia, a Lago ou Mar, despreocupação, distensão e
acalmia. Ida a tempestade, lá pairámos.
Tabor: Sonambulissimamente,
divagávamos e absortos
discursávamos
deslumbrados do repleto
sonho,
da Luz um dia erguida sobre
a Terra,
mal acomodados em nossa
tenda mortal.
Gruta d'Anunciação: Verbo caro factum est.
Pr'acompanhar-nos.
Do Anjo a irradiação
doirada a Ti descida,
começo dos começos bem
fecundo!
Jericó: Porque ofereceste boleia ao
desfigurado, o Cristo te sarará também das tuas chagas.
Monte das Tentações: Acossados, superámos o ancestral
'sespero.
Jerusalém, cidade d'acolhedoras portas sempre
abertas. A Ti, por próprio pé, acedemos jubilosos.
Sant'Ana, Mãe da Mãe da Paz, ouve o Louvor
de nossos cantos solto!
Cenáculo: Raiz do pão e do vinho
compartidos,
da plenitude das mãos, do
sopro, do fogo, da pomba e da vertigem.
Getsemani: Fundos ais choraste, sobre a
arrasada cidade.
Via Sacra: Basílica da
Agonia: Onde, um
furco perto de Teu pé sangrando,
a soldadesca jogava seu
gamão, sobre rabiscos no lajedo, com mínimas pedrinhas.
A caminho: Bem quis
ajudar-Te o de Cirene, mas Tu é que lhe deste, a ele, da Tua Vida.
Sepulcro: Nos morremos conTigo pra conTigo
redivivos renascer.
Ein Karen: Miriam, sempre, sempre caminhaste,
pois sabias do coração o longe dos Teus passos.
Da Dormição: ConTigo, a Mãe Ternura.
Pai nosso: E, iguais, Teus filhos somos,
co-herdeiros da Pátria Libertária.
Geena: Medonha,
horrenda,
dantesca, hiante,
sem fim, 'solação.
El Aqsa: Em tonto sono voavam-nos as
ideias. Sob a cúpula dourada do Templo
os anéis dos versículos da
benignidade de Um Deus Misericordioso.
Yad Vashen e Tumba de
Lázaro: Da ignóbil
tragédia,
nos reencontrámos,
inteiros, pra prosseguir jornada.
Aeroporto: Na bagagem, terra declarada.
Mal refizéramos a ínfima
parte do percurso de Teus pés.
Mas lá ficámos, andando,
vagando e respirando,
conTigo,
ó Cristo,
da pomba
do caminho de fogo e da
vertigem,
da evangélica loucura,
da pura,
e bimilenária,
inenarrável libertação.
-
-
V) também
através da poesia se constrói a paz
*398 Dos entrechos do
amor a dois,
milagre quotidiano, simples
quão familiar, ao reduto, por ora intacto, não bombardeado,
da plenitude térrea da
casa, de uvas e neve envolvente, envolvente alvíssima neve.
Em entontecido, fremente
êxtase de florir!
-
*399 A eterna novidade
do mundo
ou a renovada face da
terra! Todos os dias a nós dados, em que, nautas planetários, percorremos
todos os possíveis espaços habitados
ou não. No bolso esquecido, o plano minucioso da errância
cumprida à mistura com o
que resta de verdade de um verde raminho de oliveira. O pouco, de nosso,
que ficou, brônzea rosa da desaventura,
colámo-lo em álbum de família, por entre as demais recordações.
-
*400 Do inelutável
quotidiano:
Invariavelmente, p'las sete menos cinco da manhã, a sexagenária empregada da limpeza,
descia, sozinha, do
autocarro, que adrede parava, mesmo ao chegar à praceta. Era uma princesa,
que, às vezes, me lançava o
seu bom dia, para a janela, onde enleado poetava. E prosseguia adiante,
em seu caminho de curtos
passos, carregando dois sacos fundos, um em cada mão, dois sacos cheios de paz.
-
*401 Todos somos judeus
quanto o Cristo o foi:
Ele, que desmedidamente nos
amou, de uma vez por todas. Em sangue e água,
da humana Judeia, nos
lavou. Tornou nossa miséria merecedora da verdadeira paz.
Para transparecer,
crescendo em nós, a abundante vida do final reencontro.
-
*402 Estamos no mesmo
barco:
O meu mais próximo
companheiro de viagem é o mais distante dos estrangeiros.
-
*403 Eu ainda menino:
Nasci em Alfândega da Fé,
em uma casa térrea, habitação de único andar, no dia de Santo André,
a uma tarde entre muitas,
de uma quinta feira, do distante 1944. Por estranho que pareça,
guardo a mais antiga das
minhas recordações de uma bacia de alumínio, e o sol esbatendo-se
sobre o sobrado, isto dos
meus primeiros dois ou três anos de vida ali passados.
A casa ficava numa íngreme
ruazinha, que vai da escola primária, que depois frequentei, ao quintal do
Gouveia,
que Deus haja. Logo de
pequenino, a vida deu comigo a andanças até Lousa, aldeia num planalto,
a uns quilómetros de Torre
de Moncorvo, donde anoto duas breves recordações: Uma, de uma queda,
de um cavalo. Houve, por
força, de cair em terra verde, escassíssima entre pedras, e que pedras! Outra,
de me tirarem uma foto, a
quase noitinha, eu em forte pijama de flanela, ali o frio aperta, em um
corredor,
que dava pra uma larga
varanda. Tempos idos, mudámos pra São Salvados, lá para as bandas de Mirandela,
donde fixo os luminosos
pontos: Um cruzeiro, umas traseiras de casa, um largo, e um outro, uma fonte,
uma escola, umas medas, restolho
ao luar branco de Verão. Também da neve! Os passos, sobre ela afastando-se,
eram do meu pai, que ia,
após fim de semana, ao serviço, à Repartição de Finanças. Também, da mãe,
as sopas, ou de cebola, ou
nabiças, ou alho, ou milho, que me amarguravam aos serões as ceias. De
Mirandela,
um breve entrecho, pelos
meus 4, 5 anos: Ruído, e ruído, bombos e gaiteiros, um dia fabuloso, os
cabeçudos,
os gigantones, pertinho de
uma varanda nossa, quiçá dum 2º andar. Na Sª. da Assunção, de Vilas Boas,
estrelejavam foguetes de
lágrimas. P'lo ar lavado, descia lenta, na noite por dentro iluminada, da
leveza, do ar,
toda insuflada, a branca
Senhora dos Prantos. Por San Martino - lo rapazo de la professora anda a la
'scola,
la rapaza nô - tive meus primeiros sonhos
de imortalidade. Levei pra casa as cartolinas, co'as letras todas,
que o professor guardava na
sala de aula. Pra emenda, umas palmatoadas, na manhã seguinte. Os natais,
povoados dos luzeiros do
fogo! O ressoar dos bom, bom, bom dos bombos! O forte bradar das
gaitas-de-foles!
As piruetas, festivas, dos
pultriqueiros! A cigana sempre demandava: Uma codinha, e danço! A
enérgica, explosiva
festa, dos paulitos! Mirandum
que se fui a la guerra. Num sei quando benerá. Se benerá pu'la Páscua,
se pur la Trenidá. Meu puro e santo povo! Os longos
esterlóquios populares, em que acompanhávamos
as narrativas da Paixão,
nas longas manhãs e p'las tardes fora, insolados da prolongada maravilha.
A mina, encantada, de Stº.
Adrião. Que fixo ainda? Minha primeira comunhão: E o tremendo ar, aborrido,
rezingão, que posa ao
eterno retrato... Na ribeira, a sombra mansa, acolhedora, dos chorões.
As cegonhas, voadoras de
amplo fôlego, altas vogando, e soltas! A surpresa dos ninhos dos ovos das
perdizes!
P'los tortuosos caminhos
dos fontanários, de frescas bicas água borbulhante. As longas peregrinações,
vadiagem, até ao
pôr-do-sol, p'las leiras dentro... Que bebedeira! Ainda os arqueológicos
enlevos amorosos...
De aí a diante, perdi rasto
à infância... Vozes antigas, limpas e ancestrais, cantarolai-me la
sarapilhera!
E voltarei outra vez a ser
menino! Belém, Alcântara, Praia das Maçãs: Varanda, das velas girando, dos
moinhos,
de papel, ao vento sobre o
azul da viela, subindo, a nós, sons estridentes de folguedos e estúrdia, de
gentes
e gentes. É noite de Stº.
António!... Fecha-se compacta negridão sobre a murada cidade. Que é dos meus
alunos?
E dos poetas amigos,
aluados? A já antemanhã é clara de certezas. Trindade Coelho, conterrâneo,
ansiavas
p'lo Reino. Está por 'í.
-
*404 O espectáculo mais
bonito de se ver, na Terra alcançada do Espaço, são os homens a trabalhar:
Por mim, contenta-me de
completa alegria, a obra do novo prédio, aqui ao lado. De meu já antigo 4º
andar,
observo-a avançar, dia após
dia. É verdade que, em cerca de ano e meio de trabalho que agora leva,
ainda me não foi dado
surpreender a qualquer dos seus muitos operários um mínimo movimento errado.
-
*405 Tiram ouro do nariz
os poetas: Atraem pra suas
janelas de entressonho ar puro das remotas paisagens:
A plenos pulmões inspiram
dos aéreos cimos himalaicos: Entre sono e vigília, soletram do desconhecido:
Constrangem-se da humana
miséria e por, dos poemas, a não verem resolvida: Dizem sempre paz,
embora por arrebatadas e
condoídas, estranhíssimas formas de expressão.
-
*406 Disse-to pelas
nuvens, pelas árvores do mar, pela noite bebida, pela janela aberta.
Toda a carícia, toda a
confiança sobrevivem:
O desejo de inevitavelmente cantar, pétala a pétala,
pra ti, a inteira brancura
dos sonetos que outrora decorei. Fugindo assim do geral atordoamento
ou do degelo surdo: Contigo
que és a única, secretíssima flor, à peu près à une Mère.
-
*407 Plenitude:
À volta da mesma mesa, toda
a família, ternamente conversando.
-
*408 O homem não existe
em si, mas para Deus:
Dom António, a longe, fundo
olhavas. A morte do homem,
de que falavas, alastra,
salta-nos aos olhos, com forte odor a cadaveres:
Repete-se, vulgarizado, o
assassínio: Há a esperar um outro tempo em outro inteiro orbe.
-
*409 Do despertador
o normalíssimo tic-tac: E a
simples felicidade da indizível paz,
que entrou p'lo postigo
dentro: Meu amor, não vês? Meu amor, não sentes?
-
*410 Tratem, tratem do
governo,
do mundo e de
monarquias,
que, enquanto ocupo os
dias,
pão do forno e
manteiguinha!
Que paredes separam o
público do privado?
Ou, por outra, que tem o
doméstico, castrado gato a ver com a política?
-
*411 Imensa Mesa, imensa
Alegria:
Aos doridos Irmãos
Timorenses:
Sabei, homens, quanto vale
viver a Paz.
Sabei, homens, a insondável
riqueza da Diferença, do vosso Irmão.
Sabei, homens, o intangível
sagrado, que encerra a Consciência do que discorda de vós.
Sabei, homens, quantas
vidas se salvam por um Acordo, selado com um simples aperto de mão.
Sabei, homens, o valor que
é o Outro, e quanto bem é dardes a esse Outro o espaço vosso que lhe é devido.
Sabei também, se humanos
sois, quanto a vossa Terra merece que a deixeis florescer e frutificar.
Sabei igualmente quanto o
Ar respirável é a Luz da imensa Alegria das abertas madrugadas.
Se tal souberdes dareis as
mãos confiantes.
Se tal souberdes, chorareis
com os que choram, e alegrar-vos-eis,
com os demais convivas, do
Comum Banquete da Palavra, não só de simples voz, mas de Invencível Amor.
Se tal souberdes,
abraçareis reconhecidos os que de vós esperam o vosso melhor,
e cumprimentareis com à
vontade todo o homem,
em língua que a ninguém
será estrangeira,
e, em qualquer parte do
habitado planeta, vos sentireis como em vossa própria casa.
Abrireis as janelas amplas
de cada novo alvorecer.
Cada manhã será a manhã do
Novo Homem.
Se tal souberdes, sabereis
o que é o vosso Chão e o vosso Pão!
Sabereis o que é andar de
fronte erguida, e de alma límpida, sensíveis a toda a miséria do vosso Irmão
Sofredor.
Sabereis do peso, e da
leveza, de uma vera e sã consciência solidária.
Sabereis da dignidade de
estar vivo.
Sabereis do vosso tempo,
pois todo o tempo será vosso.
Sabereis do calor da
Fraternidade, da Alegria de vos dardes e de compartilhardes da Alegria dos que
se vos dão.
Sabereis por sabedoria
vossa, bem vivida, inaugurar um novíssimo milénio de Concórdia Amorosa e
Liberdade.
Serão, então, o Ar, o Pão e
a Água distribuídos com a Poesia.
Tereis abundante parte à
Mesa dos Humanos, envolvidos e elevados dos cantos da Verdadeira Música.
Sereis Família Humana, e o
alto, Claro Sol vosso será, e partilhado.
Um Deus será Um Comum Pai,
ou Uma Comum Mãe.
Será, para vós, actual
possibilidade de ser invocado p'los Seus mais distintos e desvairados nomes.
Será presença, jamais
ausente, na mais pequenina das flores.
Até vós descerá, e em mão
vos terá de paz movidos: Pois chegará, com toda A Sua Ternura,
ao cerne dos mais íntimos
dos vossos sonhos: E iluminará os sorrisos de todos os meninos.
-
*412 Tens muito que
fazer? Não, tenho muito que amar.
Vãos cuidados findos,
vagueiem-me os olhos cheios à tona-luz
do teu olhar. O repouso das
lides vãs se acresça à ternura do gosto de te ver.
Assim me perca e ache, todo
o meu amor do fogo do puro amor envolto.
-
*413 Dêem-me pão que
baste à minha fome,
dêem-me água que baste à
minha sede, dêem-me palavras que comungue.
E o forte abraço, do
tamanho do mundo, que meu abraço abrace: Que da pureza das mãos
resulte infinda paz: Que
tal paz alargue e se reforce nesse terreno abraço, largo ao total mundo, vasto
mundo, em que quisera
sempre navegar! Fotografa, mãe, teu querido filho: Que quási que por cá
'squeço.
-
*414 Nunca agradeceremos
bastante
o dom inestimável da paz.
-
*415 Colombina paloma,
pomba colombina, vê que meu
coração de vez co'a paz atine!
-
*416 Eternidade:
Movendo-se entre os
infinitos aurora a céu aberto e imensidão íntima, Immanuel Kant teoriza
larga e espontaneamente,
para Manoel de Oliveira, a precisão da câmara do olhar.
Isto aquando do último,
intérmino filme do enigmático realizador. Entrementes, eu traduzo e passo a
passo
legendo seus diálogos
mudos, em silabados versos, que confundindo-se s'atropelam, porque
interrompidos
p'los velozes meteoritos
com que o Menino Deus se entretem jogando a alterar-lhes trajectórias
pr'atrapalhar
de filósofos o encadeamento
das razões, de cineastas o aprofundar planos, de poetas o dizer do coração.
-
*417 Des maisons à
cigarettes et à musique:
Do eclodir dos risos
claros, dos falares.
De todos os comuns dias que
se vivem felizes,
só entretecidos dos enredos
simples da paz.
-
*418 Dormiamus, frater,
até ao acordar em carne
viva do vivo sonho a que vamos, como que inscientes
de que mesmo orientados
p'la invisível mão, imponderável, do madrugador anjo verdadeiro.
-
-
VI) dos
sonhos os poemas
*419 Descrição de um
sonho:
Um rapaz, com uma maçã a
custo equilibrada sobre o ombro direito, fez, sem fumar,
sem dinheiro e sem bilhete,
o percurso errado o dia todo. Acabou por pagar a exorbitância de 150 euros,
o máximo que o seu cartão
multibanco lhe permitia, quando, pelas dez da noite,
chegou, apesar de tudo, ao
largo, ou praça, de sua terra natal.
-
*420 O equívoco:
Vemos Camus. Ceamos num
recanto do teatro. Usamos o cartão plastificado. Seguimos, atentos,
o depoimento, filmado em
vida do autor, reclamando-nos, a portugueses e espanhóis, de ascendência de
carniceiros,
e etc., etc., e da
importância do mais que debatido bife bovino. Mal reparamos que o actor usa
bigode.
Rimo-nos muito, quando é
suposto não ter graça. Realmente não percebemos patavina do que ali acontece.
Desliza o palco para a rua,
e continuamos a peça. Fazemos que nos cumprimentamos, e não dizemos nada.
-
*421 Um dia, pra Deus,
mil anos. Mil anos, pra Deus, um dia:
111333 milénios volvidos, o
sobejamente conhecido poeta, um humano dentre os demais
da descendência de Abraão,
sic dixit: Já passou o lapso de tempo, que demorou a extinguir-se
de todo a débil luzinha,
provinda da mais longínqua das estrelas.
Tenhamos, agora, renovada e
revivida consciência do nosso verdadeiro e último destino.
Entretanto, os miúdos
aprendizes de letras confundiam da cartilha o nome impresso do vate,
em tudo igual aos demais
comuns nomes, com o do avô lá de casa, ou com o da andorinha gémea,
ou com o do bom Deus cansado.
Tal facto não constituía, para as superiores instâncias governativas,
real motivo de
preocupações. Em qualquer parte dos conhecidos planetas não escasseava aos
bambinos tempo
e tempo pra brincar. Certo
é que hoje em dia pouco ou nada sabemos dos pormenores relevantes das vidas
esquecidas dos artistas.
Quanto àquele de quem falávamos há a anotar que viveu em vida estranhos
constran-
gimentos: Especialmente por
não ter nascido mulher, por não ter-se publicado um só soneto nem ter visto
seus versos alguma vez
incluídos nas selectas, por não se ter dedicado suficientemente ao teatro
ou por não ter abraçado a
sério a carreira diplomática.
-
*422 Com ambas as mãos
pegando o aberto livro,
a jovem mulher mãe lê do
humano sentido a história já passada. Relê, treslê
e perpassa com o olhar do
coração as linhas do eterno texto que grave deus ditou.
O livro inclui dos nomes os
mais remotos nomes, dos nomes todos. Da leitura o acto demora o lapso
imensurável da terna
eternidade. Aos movimentos do olhar da jovem ledora ressaltam inenarráveis
estremecimentos de terreno
e sublime significado. Esse atento, vigilante descortinar esclarece
sobremaneira
a natural condição, a que
também redime a precariedade, que é estar vivo aqui num ápice: Ao pleno da
hora.
Em tal absorto exercício de
repetir-se, mil e uma vezes repetir-se, se resume sua estranha forma, ou alma,
de transcendente
completude. Em espontânea, enredada e mansa, intérmina, apaziguadora
respiração.
-
*423 Pungente
entristecer de minha terra:
Subíamos até meio a rua da
casa da mulher amada. De nossos passos, sob os pés,
se despegava palha
enlameada. Aquela mulher não era já a mesma dos saudosos, ancestrais amores.
Casara. Tinha marido e
filhos. Beijávamos a prima, que, com as tias, se encaminhava à oração da tarde.
O pai dobrava-se, ao fundo
da vereda, sobre umas vides. Tudo se perdoara a quem muito amou.
Estávamos prestes a retomar
o pedregoso rumo, mai'las santas mulheres. Mas dos jovens amores o rasto era
vão.
Não são os que dizem:
"Senhor, Senhor!", que entram no Reino. Tão somente com a medida
do amor,
sereis medidos. Mais se
registe, a fim, que estávamos em uma terra e acordámos noutra.
-
*424 Jamais acabaremos
de explicitar o claro dia:
O pai divorciou-se e vivia
agora em Faro. O filho seguia por toda a parte o papa João Paulo II.
Incompatibilizara-se com um
tio seu, com quem se cruzava frequentemente.
Como encetariam assim
qualquer forma de diálogo? E não era que lhe quisesse mal. Estava apenas
magoado.
Não são as catedrais que
encantam o esparzido olhar, mas mais o que em nós vive e não se diz.
-
*425 Quanto começou com
Feuerbach:
Revolvido o livro,
assinalou-se em cruz uma passagem que apontava para um duplo sentido:
Os filhos da terra
arrebatavam para si a Eterna Escritura: Chegara o tempo e cada gesto era
inaugural:
Submersa continuou até hoje
a subterrânea oração: Houvera em campo aberto peleja desigual:
E o doce Cristo fez-se ao
terrestre caminho, acompanhando, humano, o inteiro coração do homem.
-
*426 Mudança para
Nênêne,
entre Vila Real e Chaves:
Logo fomos ver o lugar de destino, que era maior do que nos quereria parecer.
A trama e a complicação de
termos, pra mudar, mais coisas do que inicialmente pensámos.
Até as embalagens dos
filtros nos sobrecarregam a bagagem, ou as orações de S. Francisco,
ou a brancura ordenadora do
computador. Quando remexemos todas as coisas, ficamos sempre com a impressão
de que muitas se nos
esqueceram, até porque delas nos não damos fé com o normal correr dos dias.
-
*427 Entre las flores:
P'lo horto do esposo, o
apeado cavaleiro prossegue, à meiga luz, o lugar donde procede.
Saudoso e nostálgico, ama,
delira, e em ténue arroubo anseia p'la pátria mãe por que, alheado em exílio,
sempre pranteou. Vão,
esmorece. Frágil, desmaia. Logo o novo olor a flor, do amado corpo o realenta.
Alto dia
acorda, entre las flores:
Alma só, a si regressa, anelando p'la, jamais esquecida, grácil donzela do seu
sonho.
-
*428 Projecto de
sucessão:
Continuar de pé até que as
pombas de meus olhos voem.
Continuar dormindo até se
me regelarem os dedos.
Continuar rezando até que o
tempo finde.
Continuar esperando até que
o café feche.
Continuar despido até que o
colchão navegue.
Continuar escrevendo até
que o papel acabe.
Continuar apaixonado até
que o mundo acorde.
Continuar sonhando até que,
morto, durma.
Continuar delirando até me
arderem as órbitas.
Continuar ladainhas até que
o cérebro estale.
Continuar a acompanhar o
derrube dos tiranos.
Continuar iluminado até que
a maluqueira passe.
Continuar chorando um
miosótis encarnado.
Continuar teimando no trevo
de quatro folhas.
Continuar a rota da estrela
cadente.
Continuar contando, uma a
uma, as cintilações natalícias.
Continuar procurando um
piolho-estrelinha na cabeça tonta de l'Enfant Jesú.
Continuar a apostar no
vermelho e no branco.
Continuar sangrando até que
se esgote a água.
Continuar nadando até que o
sangue estanque.
Continuar a coçar uma
jubilosa ferida.
Continuar a lançar-se sob o
gélido chuveiro.
Continuar a adorar a mulher
artimanha.
Continuar a andar sobre
escombros da lua.
Continuar sentado até que
os pés da cadeira se enraízem.
Continuar a dar corda a
relógios que ninguém olha.
Continuar escutando uma
espécie de música interminável.
Continuar a elucubrar
línguagens indecifráveis.
Continuar a cantarolar o
milagre da vida.
Isto - e muito mais - até
que o papa evapore.
Isto - e muito mais - até
que um dia a paz floresça.
-
*429 O super-criativo
dramaturgo
de entremezes post-modernos
misturou dinheiro com borboletas, entenda-se máquinas de papel moeda,
actores falhados,
recém-saídos do Conservatório, e cheios de milhentas ilusões, que ele próprio
filmou,
numa mistura de Benigni,
Fellini, Kafka, Saramago e Dario Fo. Ilusionista e sensacionalista, fez os
ditos
e outros desdentados
actores comer montes de erva, regenerando-se assim de sua insídia tabagista.
Até
ser reconhecido por
Hollywood e sua Academia, que os chamados momos-macacos reabilitou de vez.
Intérmina
peça essa, misto de sonho e
de loucura acordada e delirante. Outrora fora, pelo foro médico, simplesmente
declarado
esquizofrénico-paranóide de discurso ilógico e alucinatório: Ao mil vezes lhe
perguntarem
se ouvia vozes, respondia
sempre não, não, infelizmente não ouço! Montou, explicávamos, seu
super-espectáculo
exótico. Comprou uma
carrinha de articulações bizarras e foi conquistando mundo fora, pelo Leste
dentro,
à exacta medida em que Sua
Santidade o Papa ia fazendo avanços diplomáticos, que progressivamente iam
contribuindo para
sucessivos degelos de fundamentalistas e ortodoxos para não falar já de
dinossáuricos
marxistas... Pois tal
autor, dizíamos, ordenou seu super-espectáculo sem palavras. Teve enormíssimo
êxito entre
bárbaros e eslavos. Era uma
autêntica festa de estrelas decadentes, de luzeiros de fogo soprado, sobremaneira
comovente para as
instâncias do próprio bom Deus pasmado. Aliou um jeito minimalista de tratar
luzes, cores,
odores e sabores,
super-atletas, estruturas e actores, que se desdobravam de contorcionismos,
improvisos e mala-
barismos. Não era
propriamente circo ou ópera bailada: Era uma festa: Que tinha por força de
obter universal
aplauso. Mexia com tudo o
que há de mais primitivamente humano. A óbvia, pública reacção teria de ser
uma espécie de coro, ou um
choro em coro, de alegria. Essa vida de saltimbanco do dito
autor-actor-realizador-
-encenador prolongou-se por
decénios da impropriamente chamada post-modernidade. Acabou por colher
os louros possíveis, das
áureas estatuetas ao Pulitzer e ao Nobel. Pobre homem, que nunca esperou
senão lograr da alegria de
ouvir chilrear os passarinhos p'la manhã e louvar por isso a Deus por ter
nascido
mais um dia o sol.
-
*430 Prece louca de
impossíveis:
Haja sol! Desde arrebol!
Haja Deus! E haja sol!
Jogue-se, a céu aberto,
infindável jogo de futebol!
Seja imenso o estádio!
Imensamente iluminado!
Todos os canais televisivos
o dêem em directo!
Indefinidamente prolongada
seja a alta festa!
Dela se deslumbrem idosos,
adultos, jovens e meninos, homens e mulheres!
A que jamais se acabem em
noite as boas, breves horas!
-
-
VII) louvor
da luz
*431 Quem da pompa
inigualável
veste meus ociosos lírios?
-
*432 Contemplação sem
tema:
A folha, que de amarela
cai. O passarinho que chilreia, saltitando raminho a raminho.
Um parceiro seu, que voa,
alto e breve. O menino, que na praça corre. O par de namorados, que atravessa a
rua.
O bancário, pai de família,
que abre a porta do prédio. Alunos escrevendo, rescrevendo, em teste.
Duas moças sobre uma
bicicleta de sonho. A nuvem carregada, que imobiliza.
Janelas abrindo-se amplas,
as persianas subidas. A longe avoou o passarinho que na árvore inquieto andava.
Um ligeiro zéfiro flui leve
no ar lavado. De saudades repleto como que se sustém e se eterniza o actual
entardecer.
-
*433 O colorido da
folhagem d'árvores,
bailando ao quê da luz do
sul, amanhecida. Já os jovens nautas, do clima ameno,
tudo renovam do intenso
brilho renovado. Já o dia lavado, esplêndido se prenuncia, com o novo sol
se expande aos mais
remotos, apelativos recantos da imensa, selvagem cidade inexplorada.
-
*434 Ai que lindeza
tamanha:
Da neve, a clara luz, a
alta montanha, ao olhar do sonho onde moro.
-
*435 Quarteira a
amanhecer:
O branco esfuzilante das
casas, da cal sob o claro sol nascente agora erguido:
Quási que nem nos chegam olhos
pra tão difusa imensidade!
-
*436 Volare:
A alegre geometria do poema
precisa e sugere a pontuação do aquém e do pra lá.
-
*437 Da amenidade do
clima:
Delícias do poeta enamorado
da tarde lenta a enoitecer.
-
*438 Que acaso cogitam
os pardos patos,
regalando-se na lagoa, onde
agregados nadam?
-
*439 Intermezzo:
Nostalgia de barcos
atracados. Ou doçura de cordeiros pastando. Ou frémito de deslumbramento,
nas florações de cor lilás
das meigas hortênsias. Ou ondas de ondas, rebentando e renovando-se incessantemente,
umas sobre outras, sobre a
amarelada, plana vastidão dos miríades de grãos de areia das largas, brancas
praias.
-
*440 De giestais a
amarelidão
florescente, a
veementemente esquadrinhar.
-
*441 Tirem-me do
labirinto das palavras
e deixem-me toda a sã
poesia da matinal brandura incólume.
-
*442 P'lo percurso da
errância
os olhos ventoinhas haurem
tontos da fresca, fremente aereza envolvente: Pr'atrás de si
os pés deixam-nos às pedras
pisadas da calçada a magoada doçura da inaugural aurora jubilosa.
-
*443 Yo solo vivo dentro
de la Primavera! Los que veis por fuera qué sabéis de su centro?
Ao fogo, lento, do quase
extinto lume, tonto adormeço. A seu esplendente eclodir solar, todo me comovo e
desvaneço.
Noite após dia, dia após noite,
em seu sortilégio m'adentro. Longe, pra lá da vida. Lento, pra lá do tempo.
-
*444 El mar del corazón
late despacio, en una calma que parece eterna:
Dentro do sonho, fluido se
alonga o meu olhar, até perder-se na alada distância da tranquila planura do
horizonte.
Sejam fundos, plenos, os
parcos, árduos dias. Na aereza imersos, sejam fundos!
Inteiros me levem onde
nasce do canto o encantamento:
Ténues descrevam a lendária
certeza imedível d'Agosto, que reúne os comuns sonhos dos poetas.
-
*445 Por cada flor
estrangulada há milhões de sementes a florir:
Ergue-te, outra vez, ó novo
sol, amigo e companheiro dos heróis:
A que respirem luminosidade
teus surpreendentes cantos.
-
*446 Rosa que ousa, alta.
Lá fora, o firme chão. Sob
o sol. O vago medo é longe,
e foge aos pés, que avançam
p'la deserta cidade verde.
Sã verdade, que
surpreendemos perplexos, desvelada.
-
*447 As estrelas mortas
apagam-se aos molhos: Vem, lume perdido, florir-nos os olhos:
Se reavivam as floridas
distâncias de te ver: Se reacendem, após negrume de doença, as alegres
florações
dos olhos enamorados: Se
reanima o fulgor da luz d'abertos dias, puro grito, doido de te amar.
-
*448 Bénie sois-tu, âpre
Matière, glèbe stérile, dur rocher, toi qui ne cèdes qu'à la violence,
et nous forces à travailler,
si nous voulons manger.
Que estás aí só
aparentemente inerte e interpelas, deslumbras, exalças e constranges
a refazer os instantes
únicos da comunhão no mundo. Prenhe de verdade, arfando p'la parusia, coisa-asa
te chama, ó místico poeta,
em silencioso, paciente apelo, a trazeres evidência ao corpo do poema,
intérmino labor, a
profundas sondado: A que se faça clarividência da plenitude da tua presença,
real voz,
de inefáveis ledices
gemebundas, voz tua também, transcorrendo inteirante, através.
-
*449 Airiños, airiños,
aires!
Longe, mas longe, me levai!
-
*450 Sôbolos rios que
vão por Babilónia me achei,
onde em confusão chorei
lembranças da de Sião diafaneidade.
-
*451 Quarteira a
anoitecer:
O último raio de sol caído
ao mar, ficou ainda a pairar o raro brilho do saudoso dia.
-
*452 Arranca-te da
escura noite,
cálido ar d'amores do novo
dia!
-
*453 Da claridade
plenificando-se
a tarde toda, límpida e
nítida abrindo-se, tudo abraçando branda, da ternura.
-
*454 Ici:
Ao fugacíssimo lapso do
tempo reservado a meu fruir de meu recanto, ar de meu ar, ar do imenso ar,
a parte que em abrigo aqui
me cabe - contente por poder respirar - como se visse o invisível
-
digo d'o que se esconde.
Imobilizado sobre pedra, assento de meu assentimento ao inimaginável ser,
de meu "dizer"
esse ser, enceto a rigor a estruturação da linguagem de minha própria nudez: Em
'spanto, me quedo,
de maravilhado, p'lo
suavíssimo descortinar do que ressalta a meus olhos abertos, e a alma
fortemente imprime,
a ténue, mariana luz: Qual
fragmento de fita magnética em que o circundante sonido se fixe, o poema final
resulta como notícia de
anónimo repórter do insignificante acontecer. Nele acresce e emerge o novo,
novo.
Que acaso ignoto deus,
inane dorme sob verdura? A que milhentas vozes se me une minha mínima voz,
a bem dizer muda? Que
inaudível orquestração comove a clara noite de te ver? Que visão maior tremeluz
da habitual paisagem pra lá
dos pardos espelhos e das enevoadas vidraças? Que indetível sopro incita
aladas instâncias de vento
sob a erva? Acontece sempre qualquer coisa. Tal mistério m'anima e m'enebria.
Poeta de alados olhos, de
alma e sentidos alados, exulta em meu afã a vaga ideia da absoluta, englobante,
natal luminosa completude: O
mais pra lá! À praceta, Ângelo O Ochôa: Nas calmas da manhã de um sábado:
Reconhecidamente atento e
alheado. Post scriptum: No destino certo de ir acordando e amando entre os
demais.
-
*455 Sol nulo, dos dias
vãos,
cheios de lida e calma.
Contudo aqueces-me as mãos.
Contudo animas-me a alma.
Contudo a meus olhos,
luzindo na nudez da tonalidade em que tudo envolves,
golpes desferes, a neles
sempre refazer o doce vibrar do lírico sentimento.
Nu esplendes p'lo ar. E
abrandas-me as mãos, agasalhas-me o olhar, quebrantas-me a alma.
-
*456 Lobo em seu covil,
o coiraçado poeta, das
fugidias imagens, que perpassam
sua retina, os alucinantes
incêndios do sangue versifica.
-
*457 Vazio em gris e
ocre:
Ante o olhar metralhado,
guindastes e poentes.
-
*458 Meu velho, algures
nas Comores:
Talvez por lá tenhamos
andado, ao sol e à agua, em solo firme, ao pleno fogo quente de Verão,
um dia destes, em plenas
Ilhas Comores.
Ou talvez apenas lá
tenhamos deixado o errante olhar, extasiado em tamanha plenitude,
ou um breve relance de
olhos,
lançados ao grande mar, de
sonhos soltos, água, calma e velas,
da curva de alguma estrada,
rente ao oceano mais do que pacífico,
por onde, algo alheados de
enamoramento, nos tenhamos quedado.
Ou talvez que, desfeita a
morada de nosso corpo mortal, por lá continuemos ainda em deslumbramento.
-
*459 Hoje, à plenitude
do espírito,
deixa-me que possam
imprimirem-se em mim as desgarradas paisagens do inefável.
Tua calada presença exige que
coloque último, definitivo ponto final à obra do eclodir dos dias.
E louve só, a íntimo e
infindo glória, grato d'enlevado, quanto da maravilha do indizível
por língua ou voz de humano
sentimento grita, carinhosa, a claridade.
Rainha, como Franz académico
a concluir diria, em só narrar me contentei.
-
*460 Reciclagem:
Dos dispersos instantes,
por uma força maior erguidos ao ar dos vãos de Deus,
se acumulam mínimos átomos
ou miúdas porções do universal poema,
magro salário do tempo, reunidas
palavras dispersas num só verso:
Que atravessam uma vida e
lá pra lá da morte, dentro, através se continuam:
Que, revolvidas e lavradas,
resultam no final eco acabado.
-
*461 Meio Divino:
Olha as árvores a florir
p'lo caminho!
Aclarando-se, o olhar,
iluminado,
tenteia a decifração do
imo,
presença saudosa,
gemebunda,
do inefável,
prenhe do Santo 'Spírito!
-
*462 Du plus pur miel de
tous les amours:
Jx, Mª, Ioseph, obrigado
p'lo leite e mel do oiro do dia, que me deslumbra e sacia o vago olhar!
Acresça em mim a luz e a
voz da cor etérea da clareza. Clareza que alcance
me submergir a alma
inteira! E 'a sempre, sempre, a si, revivo e novo me converta.
-
*463 Versos sobre o
branco
equilíbrio da A4 na branda
luz:
O Céu não está no fim do
mundo.
Está no fim da minha
rua.
-
*464 Senhor, imprime em
meu poema
Teu não tempo! Pra que daí
ressalte o tónus vero e nu da pura luz do Teu olhar.
-
*465 De hoje em diante,
se aclare, vibre em mim e
comigo vá o quê do calmo alvorecer do terceiro milénio cristão:
Louvai Iahweh, pois é
bom cantar ao nosso Deus: Doce e belo é o louvor.
-
*466 Maria, luz de
etérea graça,
transparente cortina! Tu,
que côas o ar da luz divina,
abre-me, por 'í, passagem
para o diurno lado!
-
*467 Estes os meus
precisos versos
da boa luz banhados,
firmamento
de janelas abertas à
amplidão.
-
*468 Licht, mehr Licht!
Após ver a morte de
Empédocles, de Hölderlin: Ó terno eleito jovem, olhos cegos da Luz,
tu viste como ninguém mais!
Tanto, tanto cegaste desse ver, que, dum dia pra outro te perdeste,
sem tino, em pura queda!
Dentro do que, em ti, foi vivo vinho divino ou antevista Dor Maior!
-
*469 Descrever sem
rodeios
os momentos de da viva luz
me consumir.
-
*470 O todo envolvente
eterno,
onde meus olhos se abrasam
e fogosos rejubilam:
Onde o coração estremece:
Onde minha voz desponta:
Onde meu verso se escreve:
Onde meu Deus se lê:
Onde meus ossos florescem:
Onde minha garganta ecoa.
Onde minha paz acontece:
E minh'alma íntima freme:
Onde, des oiseaux, música
rebenta:
Onde, intérmino, o filme
dos meus dias:
Onde minha morte, erva
viva.
Onde minha viva esperança:
Onde ladainhas se rezam:
Onde mil línguas se dizem:
Onde devaneios ressurgem:
Onde meu sonho reside.
Onde minha luz se
desenrola.
Onde minha eternidade é
nada
e a saudade é além:
Onde o descanso do afã:
Onde m'exalço a estrelas
e m'nha mãe carrega em
braços flores do dia:
Onde meu horto, meu
canteiro, minha cova.
Onde brinco, 'inda menino:
Onde estou, jovem de oiro:
Onde, homem, me levanto:
Onde, já velho, me sento:
Onde passo, onde me abrigo:
Onde, a instantes me morro,
e mais e mais eu revivo.
Onde o cinza, o pó, o nada:
Onde o alento, o pneuma, o
tudo.
Onde, com Deus, ressuscito.
E, com Maria, companheira,
desnudado
de completo,
m'emudeço!
-
*471 O gato brinca amanhecendo
dentro da luz,
o pássaro voa afundando-se
de luz, a flor suspende-se, alvíssima
de alegria, íntima à viva
luz, a pomba, do fogo alado envolvente do Verbo
Trinitário, repousa e
freme, tímida e cauta parando na fina luz. Para o poeta humano e divino,
que vive, e se demora,
movido dos sons de harpa e citara, que ao limpíssimo ar pairam, sons
do eterno salmo do Louvor,
que em tudo, e em cada menor coisa, ao puro espanto eclodem.
-
*472 Luzeiros, reflexos
e cintilações:
Breve fremir de pétalas e
folhagens, radiações da ténue luz aerizada, mínimo soar,
ou leve eclodir de sons e
cores, líquidos, ligeiros odores suavíssimos de fogo, gosto incerto a mel.
Maria, é tua e de Teu
Coração a substância da natureza frágil do fascinado declínio dos meus
'nstantes.
-
*473 Nevada antemanhã,
deserto branco
d'acesa luz,
que afoga a mágoa.
-
*474 Aurora da verdade:
Alvo alvor, pleno do puro,
etéreo amor!
-
-
VIII)
episódicos e circunstanciais
*475 Sinfonia:
O controlador do colossal guindaste
executa seus precisos gestos,
que elevam a terra aos
céus, descendo os céus à terra.
-
*476 Promessa:
Uma, duas, três, quatro,
cinco, seis, sete, oito, nove, dez, vinte, vinte e quatro velas ardidas.
Ficou, impregnando o
espesso ar, em torno ao altar da Senhora das Dores, um intensíssimo cheiro a
cera.
Prolongando-se,
mecanicamente murmurada, a consumida oração chegou onde chegou. Ouvida onde?
-
*477 A colegial de olhos
lavados
inventa a cada hora novos
ritmos de trabalho a tempo inteiro: Ocupadíssima,
cumpre, repetidos,
milhentos gestos de serviço, com infindo gozo e ferocíssimo júbilo:
Atravessam-na espantosos
desvelos, e zelos, p'la perfeita realização de mínimas lidas, que, pouco a
pouco,
a transformam em adorável
mulher completa. Quando casar terá para construir a própria casa.
-
*478 O bruto avantajado
cão da obra
devaneia entre os destroços
da estrutura do andar recém-construída. Falho de motivos
poéticos, aceno-lhe como a
querer conquistar um novo amigo. Inspeccionando-me, alça
a mim vidrados olhos.
Abana, inteirado, a farta cauda. Faz que ladra. Depois dá outra volta.
-
*479 Afanando-me à
ligeira empresa
de enrolar novo cigarro,
venço algum tempo ao tempo neste obscuro afazer.
É certo que venço algum
tempo ao tempo, que me é dado. Enquanto enrolo de tabaco a dita mortalha,
não fumo, por ora, o
fumável cigarro. Se me fui fumando a vida toda... Por outras palavras, also
Pessoa dixit.
Morro-me, a instantes
lentos, do devaneio disperso do vagar, de ir devagar, mas devagar,
divagando às paisagens ausentes
do invisível. Até que, de todo, pare de subir a água do poço da canção,
essa força, esse anelo,
esse êlan, esse alento, essa verdade. E se fixe, de vez, na final estação,
esse comboio de corda,
que se chama coração.
-
*480 Adão electricista
a toda a hora suporta
choques de alta voltagem. Considerado cidadão saudável do milénio,
dada a sua enorme calma
pachorrenta, tornou-se acabado exemplo de resistente ao stress. Notórias
entidades,
da orgânica da saúde,
reconhecidamente competentes, apontam-no à geral consideração do cidadão comum,
normalmente tão apressado e
impertinente quanto irascível, impaciente, irritado ou sonolento.
-
*481 Abrindo a minha
Bíblia de Jerusalém:
Presente, passado, futuro
dos humanos, cifrado em tuas linhas. Quem, em qualquer
lugar de acaso, seja em que
altura for, te ler, sente de Iahweh o providente amor.
Então vistes que eram
muitas as brechas da cidade de David!
-
*482 Em extremo atenta à
leitura do poema,
a jovem musa aluna corrige,
em seu ácido sondar, o que, do mesmo, é excesso
de veemência incontida.
Assim reduz à normalidade crua do dia a exacerbada mensagem,
que, do dito, transparece.
Torna-se o eterno poema mais poema, porque já poema apenas.
Desceu de etéreo, aéreo voo
a pacífico episódio do escolar quotidiano.
-
*483 Concentradamente
distraído,
o condutor de autocarros
desenvolve, com apreciável destreza, a processão dos precisos
movimentos necessários, que
o tornam a ele, um santo homem, um verdadeiro profissional.
-
*484 Nova ode triunfal:
Tempo de comunicação:
Montanhas de papeis e de disquetes, A4s, auto-estradas da palavra. Transportes,
aviação, caminhos de ferro
ultra-rápidos. Velocidades supersónicas. Férias em Marte, aportando p'la Lua.
Astronaves de passeio.
Linha azul de crédito fácil. Cartões plastificados, bandas magnéticas,
digitalização, telemóveis.
A alma inteira do poeta, a
nu para o mundo inteiro. Aldeia global. A Bíblia em CD-Rom. A mais bela face do
Cristo
mais do que multiplicada,
por biliões de fotocópias. Satélites de comunicação: Água canalizada, gás
canalizado,
ar canalizado. Escolha a
temperatura do seu fato, igual toda a hora! Viva sempre em claro dia! Não perca
tempo
a comer! Revolução na
psiquiatria: Até pode dormir acordado! Congresso Eucarístico Internacional:
Novo recorde
de distribuição de
partículas! Engrenagens, construção rápida, fabricação robotizada. Em casa como
na praia!
Esteja em Lisboa como em
Azeitão! Esgotaram-se todos os slogans: Veja agora se é você mesmo
que inventa um e único! A
Oriente e a Ocidente as religiões e as filosofias convergem num novo humano.
Goze
da plenitude: Viva onde
nada lhe falte! Veja em directo do Oriente Médio o acto de assinar o último
Acordo de Paz.
-
*485 Nota à precedente
ode:
Batida a teclado p'las 7,05
h de 22 de Julho de 1999, em Setúbal, à praceta. Na Web,
p'las 9 h. Sob tudo isto,
uma lágrima de pato. Sob tudo isto, uma pomba assassinada.
-
*486 O silêncio é tão
longo que os cães enlouquecem nas ruas... E as noites ficarão imensas:
De Jorge de Lima, o
superpovoado poema, transcendendo prováveis glosas.
A nua verdade, neste
'scuro, pétreo Porto de passagem, de cães, gatos, lixeiras, monturos e
automóveis.
A fins de Julho das
fantasmagorias que habitam minha distensão.
-
*487 De eléctrico até à
Foz:
Reatam-se-me antigos
diálogos de entre banho e praia. Quereis outro achamento - além dessas
ventanias, tão tristes
tão alegrias? É
como se voltasse de novo a Norte, é como se tornasse,
mais os meus, a fazer praia
a este absurdo Norte, de rudes areais, tosca pedra, agreste mar.
-
*488 O arame do
equilíbrio inteiro:
Obrigavam-no a fazer tantos
exames, para despistagem de possíveis lesões devidas
à sua condição de antigo
fumador, que, a conselho do taxista, que o remeteu do IPO a seu hotel,
resolveu, de uma vez por
todas, largar ao empedrado da rua aquele seu último cigarro que 'inda trazia
aceso.
-
*489 Glorioso, o tempo
do desporto:
Resplandecem, de apolíneos
equilíbrios, os atletas, nas tardes noites da ofuscante luminosidade.
Mil e uma inquietações por um
golo invalidado, pois nem tudo navega em alegrias.
Há que deixar ajustar,
profundamente, dentro do sono, a que seria a trajectória certeira da bola na
grande área.
Ou rever, realiter, em
todos os canais televisivos, do súbito, último, decisivo remate o desferir
fatal: Le coup de grâce!
-
*490 Prenúncio de Outono:
O café padaria de dona
Brites invadido de folhas desmaiadas. Sorte os pombos
ou as gaivotas ou as
andorinhas - domésticas ou peregrinas criaturas aladas? -
o não acossarem, da
inóspita, entristecida estação: Sinal de que se repete o Setembro ido.
De que a propósito ou a
despropósito nos abriga ainda cimeiro boné?
-
*491 Brincadeiras
proibidas:
Ou Portugal na CEE: A ponto
de desposar uma psicóloga nórdica, o computador vomitou-lhe
páginas sobre páginas de
disposições legislativas, aplicáveis ou não directamente ao seu caso.
-
*492 Frente à Tv,
ao longo do fofo braço do
maple, o preguiçoso gato, amiga companhia, alerta postada.
-
*493 Os que vêm da dor
directamente:
Trazem raso o olhar das amplas,
largas vistas: Indetíveis e certos
da mais pura das certezas:
Ei-los que avançam dos seguros passos.
Sagrados da verdade,
loucos, apaixonados, feridos de ver, os magoados heróis.
Seu fito é mais além. Desde
a mais terna das madrugadas, se levantam.
Acossados ou perseguidos
nenhum estorvo os detém.
Lestos progridem p'la
evidência plena dos anoitecidos caminhos.
-
*494 Sol batido à rua.
Um surdo som de jazz. A
encher, dentro, o carro. Celeste ao volante, em seu vestido azul.
Tal qual quando a viu, a vez
primeira, na antiga mansarda, da porta da saleta. - Há tanto tempo!
-
*495 Balões! Balões! Pró
menino e prá menina!
Meiga velhinha,
distribuidora de sonhos a pataco, tu que dás, p'lo fio, os balões
às pequeninas mãozinhas, dá-me
também um a mim, bem colorido, pra que, o cordel firme nos dedos,
o erga ao vento do meu
júbilo, p'lo limpo ar, o brevíssimo, efémero balão! Meu maior bem! Ilusória
novidade!
-
*496 João Cabral:
O comum dos mortais 'inda
dormido, aconteceu-te dares teu triste pio.
Tiveste pois de passar o
letal rio. A esta hora estarás já acostado a outra margem.
Que bagagem levavas? Versos
e versos: Versos de pedra, versos d'água, versos d'aço:
Como d'uma faca só
lâmina: Versos vários, murmurados: Por certo 'inda mais versos por
fazer.
-
*497 Passeando seu
diminuto canídeo, na absoluta pasmaceira?
Leve-o bem, que ele a leva,
a si, consigo, até a o recôndito, esconso
recanto, onde, sem raiva,
possa bem mudar águas e, mansinho, obrar.
-
*498 Os calhaus do
ruído:
Série de terramotos,
sísmicos abalos sucessivos na Turquia. Porque lá e não cá?
Lá ou cá, ao tremer
convulsionado o planeta, fendendo-se, imos humanos despedaça.
-
*499 Chalaça ou charla,
que já meu avô contava: -
J'aquim, antes queres ferrar ou ser ferrado?
- Eu cá antes quero ferrar.
- Então ferra-me aqui as ventas no olho do cu.
-
*500 Serviço só ao
balcão
ou "ginástica
sueca": Que violência de torção que dona Rosa me obriga a fazer!
Mas dona Rosa donzela,
aproximando-se, abondava-me de atrás de mim o primeiro copo de água matinal.
-
*501 Alcoóis, alcoolismo
e outros mais tratos das contradições da dependência:
Depois de levar um forte
estremeção, Dionísio, o novo entusiasta, fã da cerveja sem álcool e do amendoim
torrado,
com seu cigarro da farmácia
no beiço, só erva inofensiva, arrazoava ufano, ante os mais díspares
auditórios,
discursos sobre discursos
reflectindo sua íntima convicção profiláctica: Só não dispensava o meio
Lorenin/2,5,
quando o frio o
transtornava e as brancas vigílias das noites vagabundas o obrigavam a ocupar,
embrenhado em sono,
os penumbrosos, invernosos
dias. Para embarcar na nau dos sonhos livres das sereias, o só ouvir uns poucos
acordes, de violas ou
violetas, violoncelos ou violinos, lhe bastava. A sós dentro do sonho, consigo
mesmo estava.
-
*502 Aos dezanove dias
do mês de Dezembro,
do ano da graça de mil
novecentos e noventa e nove,
o último dos dias,
portugueses, da nobilíssima Cidade do Santo Nome de Deus de Macau:
Hoje aportadas a cais as
últimas das caravelas, ficaste a ti entregue, aí a meu lado, povo bom na Fé,
roído da mais ancestral de
todas as fomes:
Do que do sonho do absoluto
nos ficou,
em graves silêncios
mastigamos até aos últimos grãos o arroz trazido nos convés das derradeiras
barcas:
Tonta de destino, a Saudade
cá 'stá, tangida de lusa mágoa e transformando íntimos, a melhor parte
do que aqui nos resta.
Agora que temos finalmente nossa a nesga amorável de céu que o olhar alcança.
-
*503 SOS:
A vizinha perdeu o gato,
mas que disparate!
Eclipsou-se entre o abrir e
fechar da porta.
Fugiu de casa. Talvez pra
não mais voltar.
Porque te sumiste
sub-reptício, malvado gato?
Dá p'lo nome de Rom-Rom.
Avisa-se o prédio, a
praceta, a cidade, publica-se pormenorizado anúncio.
Alvíssaras a quem o achar.
Se alguém o vir, chame-o
p'lo nome e dê-lhe kitekat.
Por onde andas a esta hora
da noite, ó famigerado animal vadio?
É preto, luzidio, usa
coleira vermelha anti-pulgas e só vê de um dos dois olhos, o esquerdo.
Mas é meiguinho,
asseadinho, garante a vizinha, e faz mesmo imensa falta.
Não vamos contar a história
dele, que dava um longo romance.
Por ora trata-se de
recuperá-lo. Oxalá não esteja já a rebolar na barriga d'algum chinês!
A vizinha, d'inconsolável,
obriga-me a enviar este urgentíssimo SOS para a Internet:
Encontrem, mas encontrem o
Rom-Rom.
Já que a cibernética o
permite, apresentam-se, em marginália, as ventas pretas de larau do mansarrão
Rom-Rom.
Pra que apareças e voltes à
tua dona, desgraça de animal!
-
*504 Amores difíceis do
gato Caramelo:
Verdes redes de nylon e
estruturas de andaimes separam Caramelo da amada gata,
do vizinho prédio em
construção: Bem tenta ela a aproximação: Os arredores rodeia, explora, estuda,
enquanto Caramelo,
dependurado de sua janela, como estátua imobiliza e freme: Mutuamente se
cheiram,
mas, na aluada, inóspita
noite, a distância entre ambos é praticamente intransponível, e feita só de
sonhos
de impossíveis: O peso da
nocturna hora passa, expirando e inspirando frias árias, suspenso da pedra
mármore do peitoril de sua
janela. Regressado ao interior fofo aconchego da carpete, suspiros fundos
solta,
no frio gemer de seu
tristíssimo miar. Lapsos depois, à estratégica postura torna,
e já a amada gata, dos
olhos negros faiscantes, desistira de rodeá-lo. Continua então movendo
e re-movendo o pescoço,
estranhamente suspenso que ficou de áureas luas.
Ia eu pra me deitar, e ele,
rondando-me, dose de comida reclamava.
-
*505 A incrível
bailarina que é meu par,
desafia-me a poetar os
nossos, tão só sonhados,
larguíssimos passos de
valsa.
Perplexo, que tenho a lhe
dizer?
Que em registo vídeo eles
estão perenemente gravados, esses famosos e exóticos passos voadores,
subliminarmente gravados
sob as aluadas pedrinhas, e flores, da nossa comum praceta.
-
*506 De ferry boat até
Tróia:
Estuário das leves
ondulações onde residem áureos sonhos de golfinhos e gaivotas, à superfície
da aquática brancura da
espuma em neve flor. Entretecidos de vago e de distante, incógnitos navegamos.
E, súbito, sem nos
apercebermos, atracamos.
-
*507 Por nocturnas horas,
um grilo na casa de banho
corta, com seu gri-gri incisivo, escuros de desesperança.
-
*508 Escrivaninha das
horas quietas:
Estou morto e não me
levanto, absolutamente morto para o que não seja.
-
*509 P'lo São Lourenço,
vai à vinha, e enche o lenço!
Tão longe, inacessíveis
ficaram uvas e vides, das vertentes da infância alada!
Hoje, migrante desterrado,
resta-me tomar o 4, até ao Livramento.
-
*510 Estória do filho do
Diabo e de Ana Pandilha
conformemente contada por
Velho António Bento, setubalense de nascença e creação:
O Diabo tem cornos? Mas ele
nunca foi casado. O diabo usa forquilha? Mas ele nunca trabalhou
Do Diabo e de Ana Pandilha
se tramara um filhote, que não tinha coração.
Nisto, Dom Diabo interpela
o Bom Deus: Vais mesmo deixar o filhote, meu e de Ana Pandilha, vir a mundos
sem coração? Logo desliga o
Bom do Deus sem troco dar. Nasce, e cresce, e, de si, se faz filho de algo
o cornudo cachopo
descorçoado e desalmado, e pronto é já meio palmo de gente. No entretanto
tomado
de um baque dos seus, o Bom
Deus a o estranho petiz vai de comunicar: Rabino Moço, sabes
dentre o sideral espaço
imenso, que minha bondade administra, de um minúsculo planeta,
de humanos habitado, a que
chamaram Terra? Queres tu ir pra lá?
Então promete lá portares-te
bem, e cuidares da vidinha.
Prometo, prometo, prontamente responde à divina
prédica o enfeitado moço.
De quejando, sumário
diálogo, resultou cá descer o famoso filho do Diabo. E a que veio
a sinistra, cómica,
"invisível" criatura das trevas e da mentira? Oh, este mundo
dividido! Todos os dias,
a todas horas, por praças,
por ruas, por ecrãs, surpreendemos sequazes bastos do Mofino. Esse dito cujo
gajo,
espertíssimo à insídia,
montou seu singular busílis: Gerir sórdido estáminé, em bem transitada esquina.
-
*511 Revejo Leandro,
leiteiro dos velhos, de
carrinha e vasilhas, púcaros e medidas de latão. Já reformado,
continua em forma,
convivendo com seu bicho de trabalho, bem ruim de dominar, continua
envelhecendo, calmamente fazendo
e refazendo iguais percursos, antes de porta a porta,
percursos idos, matinais e
eternos.
-
*512 Quando o
castanheiro do quintal floriu,
toda uma antiga angústia se
desvaneceu.
-
*513 O carteiro Candeias,
mais conhecido por
flaviense, conversador, ou vagaroso, apregoa a todos mil maravilhas
do presunto e da comida de
Chaves, desde que por lá passou, uma ocasião, uns oito dias.
-
*514 Raúl, o soba negro,
para os bancos da pedonal
rua de Vasco da Gama, da Quarteira, desterrado
toda a clara noite as acordadas
Áfricas e Índias de seus desertos fuma.
Em crueza acabrunhada de
loucura. Sábados e domingos, a altos brados
roucamente entoa, pra quem
o quiser ouvir, o ave de Fátima!
-
*515 Ementa:
Sopa d'alho francês, figos
pretos de capa rota, queijo fresco, água fresca do Alardo. E ala moleiro!
-
*516 A delicadíssima,
fina película
ou a transparente casca da
cebola: Entre dramas virtuais
de históricos vampiros e
entrechoques das mais comuns paixões, Pedro
e Pedro enredam, com jogos
de imaginação e enigmas de charadas só sonhados,
o despontar do novíssimo
terceiro milénio que aí vem clareando!
-
*517 O professor Campos
comprou garagem no prédio
ao lado,
na mira de por lá dar
largas ao seu fraquinho por pesca submarina.
-
*518 Delicadeza:
- Dê-me uma bica, mas anormal!
- Desculpe lá, mas o que é,
para o senhor, uma bica anormal?
- Uma malvadinha, das que
ardem por dentro do coração.
-
*519 Campos da bola:
Grupo Desportivo de
Bragança: Longa era
a marcha até lá e o descampado.
Aquecia-nos o humano calor
da dura lide.
Adelino Ribeiro Novo, do
Gilinho: Fervilhava
humanidade o envolvente próximo:
Tempo em que Ynjai não
falhava um único canto directo.
Antigo 28 de Maio: Convivas abancados sobre pedra,
torcíamos cada qual por seu Sporting.
O rescaldo era rever cada
lance em pormenor, à mesa da comum palavra.
Associação Académica de
Coimbra, ao Calhabé:
Dentre o negro de capas, batinas e bandeiras,
exultávamos de Eusébios,
Jota-Jotas, Rochas.
Ginásio de Alcobaça: Para alguns, poucos, o resultado
acabava por dar certo:
De várias paragens vindos,
saboreávamos reunindo-nos o destino.
S. Luís: Aparício bem buscava repor a
verdade no prolongamento:
Só que as bolas que lhe
davam, não caíam onde quereríamos.
José de Alvalade: Inclinados para cima da relva,
comoviam-nos os golos esperados.
Bonfim, de Setúbal: Ao vitorioso disparo do Henriques,
voaram confetis.
E o meigo sol brilhou mais
intensamente.
-
*520 Habitadas casas:
A Lousa: Escuro e claridade sobre pedra.
A Cerejais: A graça e a luz, a sombra e o
pecado: Beethoven.
A Valverde: Propaganda de velhas
presidenciais, com sabor a fraude.
A Trindade: Cenouras, nabiças, horror do
escuro, ledos campos e escola, paredes meias à casa,
jovens criadas,
cantoneiros, tinteiros, bambas carteiras, luxúria, um crucifixo.
A São Salvados: Brinquedos destruídos, nevões, a
largos campos.
A Vimioso: Nasce-nos um irmão: Lavatórios,
toalhas, azáfama, água quente. E banda desenhada.
A Alfândega da Fé: Leitura das longas tardes: O
bobo e O incesto. Escadarias, sobrados recém-esfregados,
caves, antigos jornais,
velharias, tralha e poeira acumuladas, pátios, trastes, férreos gradeamentos.
A Coimbra: Sótão de ideias. Escritos a eito,
luta, desalento, e reerguer-se:
Habemus Papam: Giovani
Baptista Montini!
Ao Porto, a Cedofeita: Livros de botes, livros
armazenados, que ninguém leu.
A Braga: Crime e castigo, a desoras
até a fim. A montanha mágica. Num ápice, jovem e bela, a explicadora de
Alemão.
A Cardanha: Aconchego de cobertores de papa:
"Ângelo, apaga a luz e dorme!" Os pascoais Belo e À minha
alma.
A Barcelos: Primeiros canhenhos de tímidos
versos: O Turismo, a Tv: Vilaret, Nemésio, Homem de Melo, António Pedro.
A Lisboa: Clarinha nuínha no banho. Súbitos
baques de infância.
A Cem Soldos: Os pintalgados impressionistas.
Ecoar de horas no relógio da sala. O inicial sorriso da manhã.
A Setúbal: Todas as noites p'la meia noite o
repetido acto do casal vizinho.
A Quarteira: Abertas as portas, à luz, as
janelas, as paredes, a vida. Abertas não, escancaradas.
A Madrid: Proximidade de estudantes e secretos
arquivos de silêncio, a esquadra próxima, as irmãs conventuais.
A Leiria, Fátima: Surdo e nocturno remoer de versos.
A instantes ledices e ternuras gemebundas.
A Jerusalém: O patim contíguo ao quarto, dos
desolados fumos. Também dentro, ao vão, é átrio santo.
-
*521 Viagens:
De trem:
Do Tua a Bragança: P'lo dentro de vinhedos,
desolação, fragas, urzes, giestas, estevas, aereza, montes.
A longe, torneando curvas,
um automóvel verde.
Do Porto a Barca D'Alva: Acompanhávamos o correr do rio de
oiro, no entanto rumando contra a aluada corrente.
Do Entroncamento a Tomar: Avistávamos a casa, como que
reconhecendo-a familiar, no fluir desconhecido.
De Coimbra a Lisboa: Entre férreas estruturas,
revoltávamos o poema.
De Setúbal a Faro: Se por demais sobrecarregados,
lançávamos, janelas fora, os magoados olhos.
De Copenhaga a Malmöe: Poesia de serenidade, sinica
poesia, Shakespeare, Ibsen, Pöe, Selma, Karen Blixen.
De automóvel:
P'lo Vale da Vilariça: Os mesmos sítios das mesmas histórias,
vezes sem conta rememoradas.
Até Madrid: Antes do Cerro da Águia, muita
curva e dor, ruins aflições, pavor, consumição e morte.
Até Paris: Até ao Bois de Bologne, muito pra
trás ficou do nosso vão dormir desperto.
Até ao Algarve: Noite, dia, a rádio: O terço ou
Ravel e a agreste fantasia.
Quarteira/Setúbal: Pela manhã encetávamos o caminho
de regresso até a de onde saíramos.
De avião:
Portela/Zurique: Enquanto nos entretem a refeição
da Swissair, o eterno entretece-nos vagos gestos.
Funchal/Portela: Rectângulos sob relâmpagos,
mondriânicos rectângulos, extensões de pátrios terrenos.
Caído a chão o alado pé,
devolvíamos a deserto revoltos sonhos.
-
*522 Contava-me o velho
professor Costa
que o Setúbal, de há
cinquenta anos, empregava pessoal especializado em remover dejectos
das "tigelas das
casas": Horrível fedor! O destino último dos mesmos era a cultura
agrícola,
daí o Zeca ter cantado: Quando
o pão, que comes, sabe a merda, o que faz falta: O que faz falta
é animar a malta. Hoje em dia, mau grado sofisticados
sistemas de tratamento, com pompa inaugurados,
continua a ser verdade que
quanto mais se remexe a dita, mais ela fede.
E ainda não menos verdade
que as moscas migram, mas mesma é a mesma.
-
*523 - Então, muito bom
dia!
E ninguém responde. Os bons
dias estão mesmo p'la hora da morte!
Ainda se fossem as boas
noites, estou como diz o outro. Será por ter chovido muito ultimamente?
É caso pra perguntar.
-
*524 Elegia aos últimos
sapatos luva
que o meu pai me comprou:
Por onde andastes, por onde
não andastes, fizestes verdadeiros os percursos:
E agora chegastes
naturalmente ao fim.
-
*525 Reina gran confusão
no estaminé:
Bufa o gato, 'spartiça-se o
copo, tropeça a padeirinha:
Pois é, qualquer dia parte
um pé!
-
*526 O comedor de sandes:
Sem hora pr'abancar a fim
de dar gosto ao maxilar ei-lo imprevisto.
Não é que sempre o
reencontro?
-
*527 Rogélio, o último
dos cravas:
Ocupando a tempo inteiro os
últimos milénios do pasmo em anti-diplomáticas abordagens,
a mim consegue palmar-me um
por semana. O facto é que vai contando com desvelado
acompanhamento anímico de
gentis e humaníssimas psicólogas: O fi-de-puta!
Por nocturnas,
intempestivas horas, entra ao Caffè di Vita,
ante o primeiro cliente
especa, e boçal dispara: Posso pedir-le um cigarrinho?
-
*528 Pesquisadores de
anedota:
Mil selectas bocas ouvem
até descortinarem a última das últimas: Tarde e a más horas,
ei-los que chegam a
estúdio: Os porreirais artistas: Violinistas, contrabaixos ou líricos cantores:
Após pródiga distribuição de
palmadinhas em costas camaradas, contra o sóbrio maestro de ar sisudo,
para o ar soltam,
descontraída e alarvemente, a que eles julgam última das últimas.
-
*529 Padeiro Moreira, do
Alto da Guerra,
tem viva memória da
História de Portugal da quarta classe: Não esqueceu nenhum dos cognomes
dos antigos reis: O
venturoso. O desejado. O gordo. O magnânimo. O conquistador. D. Pedro I,
o justiceiro: Pois vingou a
morte da amada Inês de Castro por mão de bandido que seu pai contratara:
De nome Pêro Coelho ou Diogo
Lopes Pacheco: A quem mandou arrancar o coração pelas costas.
-
*530 Às portas de
Querença
fazemos digestão do repasto
de Carnaval: Do fatal cigarro
fumamos e, do Caldeirão,
dos novos ventos respiramos.
-
*531 Aquela mulher de
Ciência
viveu os anos sessenta no
Quénia selvagem, rodeada de tigres,
chitas, leopardos, leões e
outros felinos. Um leopardo rebelde,
que ela secretamente sempre
temeu, embora seu predilecto
de arriscados jogos e
brincadeiras, um dia a devorou.
-
*532 Descalço dos pés,
mas podre de rico, o descalço d'Évora
entrou certa tarde no Café
Arcada. Chega o garçon,
e o põe no olho da rua. Mas
o dono vai buscá-lo de volta.
Logo ele, acomodando-se,
exclama: Senta-te, Meu Dinheiro!
-
*533 Após intensa chuva:
Encher-se o ar de vago, de
puro e de distante,
florida largueza,
intérminos chilreios, luz crua, maresia.
-
*534 Entretido releio:
E uma vida inteira por mim
perpassa.
-
*535 E escrevo fim:
Alvorecendo.
-
*536 Ladra um cão,
passa um carro,
a aurora rompe.
Eu posso lá morrer,
terra florida!
-
*537 P'lo Olé Paelhas
de Sara as dezoito
primaveras expandem-se em samba,
por entre cabeças de fumo,
cola e caipirinhas.
-
*538 Campeona Neuza:
Onze anos há que a raquete
do ténis a acompanha. Ela que conta agora dezassete.
Teima agressiva a move na
peleja. Aos treinos dedica das melhores horas.
Vejo-a a adejar no court
um, do quarto, do meu 4º, ao CTS. Rodeou já o inteiro orbe:
Espanha, Bolívia, Escócia,
Japão, Colômbia, Polónia, Chile, eu sei lá. De Santiago recorda íngremes
alturas.
Às aulas a Miraflores vai,
despedindo-se de mim, tal uma qualquer rapariga da qual nada há que aqui se
diga.
-
*539 Depois de ouvir ler
da "bucólica" uns versos do Avelino:
Sussurra ventanias sonho
inóspito, reverdecido ao rés da farta relva,
aragem que arrepia e
arrefece. Tomba o sol a meu canto a oriente.
Ecoa já, p'la noite negra,
da urze que estremece a voz divina.
-
*540 Citar-te,
irmão Barahona:
O poeta passou-se, com
armas e bagagens, para o Todo de Deus e refugiou-se na Chaga do Lado!
-
*541 A estupidez e a
ignorância humanas dão ideia do infinito.
- Puxou o autoclismo?
- Não ouviu, por acaso?
- Aquele autoclismo deve
ser mesmo silencioso.
Praza a Deus que,
pacientemente, vá esquecendo, suspenso que me quede do madrugar aclarado.
-
*542 Árduo falar
bilingue:
- Bom dia! Un petit café
noir!
- Desculpe, se bem entendi,
no ar não adrego tirá-lo, só na chávena.
-
*543 Na tarde do Domingo
passado
surpreendemos o nosso
Conservador Arquivista Municipal abancado com a sua senhora
na esplanada de uma
conhecida geladaria da baixa, comendo a colheradas de vítrea taça
bruto e envergonhado
gelado.
-
*544 O Silva contador
não suporta vozearia. A
tarde inteira passou em demoradas leituras, prá EDP.
O som rock, a nicotina e a
cafeína tolera no entanto, acomodado entre garotas.
-
*545 Desde carros
roubados
ou de portas, ou rodas,
arrancadas, a jeepes transviados e depois desagregados em peças,
tudo a noite, na praceta,
foi pródiga em encobrir. Até termos connosco o guarda nocturno, que agora
passeia garbosa farda por
inóspitos recantos, que perpassa a pente fino nas horas do saudável pasmo
finalmente inaugurado. Isto
e muito mais - mais do que o que aqui se diz - dentre volteios de solitárias
aves,
luz melhor e refluxos de
benévolas ventanias.
-
*546 Ternura ácida
de arrumar papelada velha,
bons e maus momentos revividos,
fixada história escrita de
uns bons dias. Saudades gritando do duro pó.
-
*547 Da impertinência da
Saudade:
Será que és tu, garota
de Ipanema, que vens aí bamboleando-te,
dengosa e azougada, p'lo
Vieux Port?
Que coisa linda, mas linda!
E eu nesta saudade de vago
e de distante, acompanhando a música dos teus passos,
na mesma, igual, natal
entretecida nostalgia.
Que longe, longe, a Ibéria!
A Orla Dourada, o Nada, a Névoa, a Claridade! O dulcíssimo Brasil! Do povo
irmão!
Quanto longe o mesmo
Portugal!
-
*548 Eu canto da Empresa
Carlos Costa
a obra há quase uma década
começada, canto-a porque
a acompanhei com vida, dia
após dia subindo ante a janela aberta
do sonho do meu nada. Antes
de raiar clara a madrugada é já
o anónimo operário da dita,
arremetendo do Ernesto o tasco,
onde o pão quotidiano,
vulgo carcaças, cedo demando. Café
é o alimento comum da hora
amanhecida. Sumindo-se,
esse anónimo laborante
lidas mil do dia, novo e novo dia, arrasando-
-se, empeçava. Hora
qualquer que fosse, que eu fumasse o pensativo
cigarro, debruçado sobre o poético
alpendre, esse obreiro anónimo
de Carlos Costa a obra
alevantava: Eram pás e pás de lixo removidas,
era o guindaste incansável
a topo alçando torpe matéria, e descensos
e subidas exercitando: O
infatigável José o dominava. Era o terraço,
a escadaria, o sótão, o
azulejo, a massa de fora, o revestimento,
a carreta, a obra, andaimes
postos, usados, retirados, um sem número
de afãs que eu poetando
acompanhei. Hoje me disse o brasileiro
Leandro que um ano já
somente de lida à obra falta. Logo o andar
modelo me propõe que visite
e contemple esplendoroso. Erguida já
ao céu da alta torre a obra
dos andares vai. Anos de sol me rouba,
que, em Acapulco, Carlos
Costa devera me repor, pra compensar
o do professor poético
exercício exílio da sombra e da demora,
a que hoje se remete, de
mil versos enredado. Esta é a humílima
epopeia, pátria e local, do
meu acontecido recanto, que eu canto
e canto, esconso em meu
abrigo. (Inédito, evacuado poemeto, para
Leandro e seus amigos
companheiros, obreiros do prédio a meu lado
erguido na praceta. A
pedido deles o fiz. Só para eles é.)
-
-
IX) simples
orações
*549 Graça singular
achou em Ti o Altíssimo
um outro dia, em que em teu
enlevo cuidavas de tua casinha, num recanto de Nazareth.
Cenário mirabilíssimo os
olhos de Gabriel, Teu anjo, acordados viram, quando irrompeu
por uma porta cerrada.
Parou então a acção sem fim de Tuas mãos, de cujos modos se envolvia a paz:
Essência e perfume da mais
bela oração! Pudera eu também na hora divisar, através da translúcida cortina,
se o acaso de meus dedos
não alcançasse arredá-la, Teus alados gestos, Miriam, dulcificando o
entardecer!
Quanto absorta Te
surpreendes da inesperada visita! Logo o coração Te balbuciou humílimo e
sublime sim.
-
*550 Fátima:
Arrancada de um mundo novo,
arrancada de um mundo novo...
Nova Jerusalém, Novos Céus,
Nova Terra...
Noiva ricamente ataviada...
Manso cordeirinho... Meiga gazela...
Dulcíssima Apaixonada...
Delícias e ledices do Dilecto Esposo...
-
*551 Não era o vulgar
brilho da beleza.
Era outra luz, era outra
suavidade:
Que me não esqueça, Mãe. E
a não perca. Irmã comigo vá. Não me abandone.
M'envolva inteira. Me
acolha. Meiga me abrigue próxima, na fria noite.
Me acompanhe, enfim, ao
resto que resta do caminho: O bem árduo e árido caminho.
-
*552 Que pela acção do
Espírito a vossa esperança transborde:
Nos demos inteiramente: E,
assim, porque, de imensamente forte, nos invades
e nos enches, de irmão a
irmão, saciemos a comum fome, de algo mais
do que a só vontade do
quotidiano comer. Todos nos demos, e, onde quer que essa fome nos roa
do humano destino, hauramos
com fervor do transbordante vaso, que em frágeis mãos sustemos.
Assim se revigore em nós o
sabor novo, de antigo, da viva sabedoria das multiplicadas palavras que és.
-
*553 Jezu, ufam tobie!
O Eterno é meu pastor e
eu seu cordeiro. Conduziu-me às vertentes das águas cristalinas:
Louve-se, a uma voz, Ieóua,
Miriam e Ioseph! Em todas as línguas das babeis da Terra,
toda a criatura louve sem
cessar a família humana e divina de Nazareth! Nossa Senhora da Vida,
olhai por nós! Jesus, meu
irmão, perdoai-me! Maria, minha mãe guardai-me! José, meu defensor,
fortalecei-me!
Nós te louvamos e
bendizemos, ó Maria Imaculada, Mãe co-Redentora e amável, porque trouxeste
a nós Teu Fruto Excelso, ó
Eleita do Altíssimo, Aquele que é a experiência que vivemos, n'Ele e conTigo,
da Admirável Redenção. Nós
Te bendizemos e aclamamos, Maria Imaculada, Mãe co-Redentora e amável!
Aclara-nos o caminho,
sempre connosco vás, conduz-nos, seguramente, conTigo, por Tua mão.
Aia de Jesus, rogai por
nós! Aia do Senhor, rogai por nós! Senhora do Carmo, defesa nossa, dos duros
transes!
Santo Espríto de
Benevolência, infundi dentro em nós o puro fogo do verbo do Vosso pleno amor!
Anjo Companheiro, dá-nos o
discernimento de bem agir, faz-nos firmes os passos no caminho!
Bendita, sempre, a flor da
Santa Eucaristia, pão que do Céu de graça se nos dá em alimento,
fruto do trabalho e da
triga farinha, que Maria, Nossa Mãe, em seu casto seio, acalentou!
Maria, José, Jesus, em Vós
confiamos! Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo!
Que seja exalçado, Senhor,
em todo o lugar, Teu Santo Rosto. Que se nos apresente favorável!
Benção Tua, ilumine-se-nos
propício, e sempre, sempre, sobre cada um de nós, inteiro resplandeça!
Eu sou todo Vosso, e
quanto possuo Vos entrego, ó meu amável Jesus, por Maria, Vossa Santa Mãe!
Coração Imaculado de Maria,
sede a nossa companhia! Doce Coração de Maria, sede a nossa salvação!
Porque a Natureza é o
doce sorriso do Cristo, Francisco, António, Clara, repeti connosco um
louvor grato
e obrigado p'lo irmão sol, a
irmã lua, as estrelas irmãs, altas, preclaras, belas, e p'la amiga irmã morte
natural!
Livre-nos Deus de morrermos
em pecado mortal! Porque é Natal há dois mil anos, se cultive,
se cante, floresça e soe e
p'lo inteiro orbe ecoe, acompanhada do coro dos alados, inumeráveis músicos,
da felicíssima meia noute
de Bethlehem, dos filhos de Deus a libertadora e imorredoira alegria!
Padre Cruz, Jacinta,
Francisco, Lúcia, inspirai-nos a que nos mantenhamos sempre vigilantes e em
sacrifício:
Para que, em tudo, façamos
por merecer, tendo parte na paixão libertadora do Cristo,
da bondade de um Deus, que
é nosso Pai. Santa Teresinha, ora pro nobis! Beata Faustina, ora pro nobis!
Porque o cedro foi
arrancado. Afastarei de teu seio os teus orgulhosos fanfarrões. Um povo, pobre
e humilde,
procurará refúgio no
nome de Iahweh: O Resto de Israel: Não nos pesem mais angústias passadas.
Nossos tens Teu Louvor e
acções de graças abundantes p'los séculos dos séculos dos sucessivos milénios.
Benção e consolação Tua,
Deus nosso, Único e Verdadeiro! Nosso corpo mortal nos seja leveza e cruz
de Tua santa alegria,
Senhor Deus do Universo! O Louvor que Te damos seja Festa, Esplendor e
Restauração
das ruínas da de Israel eleita
casa. Atribulada, não vencida, humilhada, não abatida, vexada, não subjugada,
entristecida, jamais
desesperada: Porque no Teu Nome só pôs sua confiança.
P'la Tua Santa Cruz, ó
Cristo, Filho de Deus Vivo, todos Teus sejamos inabalavelmente, para conTigo
suportármo-La aos
remotíssimos confins. Até nada mais vivermos do que o só esbatido reflexo de
Tua face,
no coração da Tua imensa
Luz. Em Ti, que és Luz de toda a Luz! Coração de Maria, Castelo do nosso
refúgio,
guarda-nos do Malino! Tão
verdade é o estares connosco, Maria, Mãe expectante! O que esperas tens
por condição. O que em Ti
saudosa anseias Te foi dado antes. Pára, de alegria, Teu nóvel tempo, ó Gratia
Plena!
Estrela da Manhã, Porto
Seguro, Teus olhos vêem o que é melhor para os ânimos humanos titubeantes. Por
isso
tanto pranteias seus
descaminhos. Teus somos filhos, irmãos do Filho Teu. À tua maternal solicitude,
a Teu coração,
Sapiente Protectora, quando
nos acolheremos? Do peregrinar do Céu tão arredados! Vela-nos os rumos.
Repõe em nós a simplicidade
amorosa de há dois milénios, quando fazias o necessário em Tua casinha de
Nazareth!
Nossa perdida vida ganhe
Vida: Vida que em Ti vivida é viva Vida. Teus nos toma em mão, a fim de
refazermos
conTigo do vaguear os
percursos - da clara luz banhados. Refúgio de pecadores, conTigo somos. Se
meiga Te dás,
nada nos falte. Se sempre
de nós tens Teu cuidado, nenhum receio, ou medo, nos ensombre. Teu níveo ar
conTigo
respiremos, e, assim em Ti
pra sempre, repousemos. Em Teu casto colo adormeçamos: Dá-nos longo sono bom,
nosso sonhar meiga nos
guarda. Boa companheira, linha recta até à Trindade, a escadinha Tua nos
apronta.
Tuas rosas, rescendentes,
se derramem sobre o nosso leito de dor. Toda formosa és, aqui nos vês e tens,
aqui
nos tens e amas. O resto é
nada. Tua Dextra suporta a minha dextra. Como pastor recolherá os cordeiros
a repouso:
A nós recolhe Tu só, ó Bom
Pastor, distantes que somos de reconhecer Tua voz que a cada clama! Se nos
conheces
como mais ninguém, de nós
desconhecidos nos encaminhes aos verdejantes, pródigos prados de Tuas
pastagens,
benção Tua amorosa da graça
toda plenitude! Aí, nada nos faltará. Nos dês de Tua viva água de Teu bondoso
lado!
De viva voz a Ti se solte
humílimo louvor, em pleno não tempo, inimaginável à humana medida. Tua Luz me
abençoe.
Mimados a Teu colo de Pai e
Mãe, fidelíssimos nos guardes, ledos da bondade que dói em Teu coração
golpeado.
Esteja connosco o Senhor
Jesus Cristo. Abra-nos a porta do Seu coração Sua Mãe, Maria Santíssima!
-
*554 Em que espelho
ficou perdida a minha face?
Tomas nosso nada e dás-nos
um nome nosso, que é tudo o que connosco transportamos, um nome cristão.
Tomas nossa fraqueza e
dás-nos Tua força que nos abre todas as portas. Tomas nosso silêncio e torna-lo
repleto
de Tua Palavra, nuvem d'estrelas
na noite do fundo coração. Um firme fio invisível liga-nos à fonte que Tu és.
Porque em Ti nascemos,
somos e passamos, em Ti desaguamos. Flui, em Teu tempo, nosso tempo,
o escasso tempo que para
aqui nos deste.
-
*555 Apanha, em mãos, a
terra:
Nela, és hoje tudo o que já
foste ontem e tudo o que serás amanhã e depois de amanhã.
-
*556 Bendita a paixão
redentora do Senhor que padeceu por nosso amor, a cabeça de espinhos coroada:
Rombo ou losango. Alguém em
leito de dor. Sol de após chuva. Levar adiante, a bom termo,
o árduo afã que vamos tendo
em mãos: Ora et labora! Tornar mais leve e livre a bela liberdade.
-
*557 O pai de teu pai e
a mãe de tua mãe levam-te Deus dentro:
Sem esforço se fixa de teu
sorriso nítido a fotografia. Os filhos de teus filhos e os netos
de teus netos recuperarão a
transcendência simples da sequência que começaste.
E al fim em Deus te terás -
como Ele te vê.
-
*558 Dos 15 mistérios do
rosário:
Anunciação: Fiat voluntas Tua.
Visitação: Maria, a caminho.
Natal: O Verbo, encarnado.
Apresentação: Cumpre-se o rito.
Encontro: Explosão da sabedoria do Menino.
Agonia: O Filho d'Homem, suando,
sangrando, diz Seu sim aO Pai.
Flagelaçâo: O manso Cordeiro deixa-se,
entregue, torturar.
Espinhos: Ecce, o humaníssimo rei.
Cruz: Toma-nos conSigo.
Morte: Todo Se dá e, dorido, nos redime.
Ressurreição: O primeiro Domingo da Eternidade.
Ascensão: O Filho de volta, abraça-se aO
Pai.
Descenso: O Paráclito, Tudo, em todos.
Assunção: Salve, Aia Eleita de Iahweh.
Coroação: Ave, Maria, Rainha dos Anjos, paz
da inteira Terra.
-
*559 Não deixeis
emudecer a boca dos que Te louvam!
Infindos amens, louvores e
glórias sempiternas a Teu Nome Acima de Todo o Nome:
Ante Ti se dobre todo o
joelho. Voem ágeis os passos dos construtores da Paz.
Exultem os humílimos da
terra. Brotem águas vivas dos duros rochedos.
Frutifiquem abundantemente
os campos da secura.
Soltem-se os murmúrios de
gratitude dos pequeninos, a quem as mães 'inda amamentam.
-
*560 Todo o homem deve
nos aparecer como um irmão, um irmão como que do manto do sangue de Cristo
revestido:
Osso de meu osso, alma irmã
sofrida, dói-me dentro, crua, tua dor: Vinho, sanguíneo, de imos esfaqueados,
crística paixão!
-
*561 JHS:
Que corpo é esse, que
corpo, que, solidário como e a mim assimilo? É o corpo, humano e divino,
de todo o distante ou
próximo humano. É um corpo um, que me une aos mais dispersos dos filhos de
Israel.
E aos mais 'sgarrados dos
excluídos, só porque diferentes: Com eles eu sou um outro infinitamente livre
da infinda liberdade
completa dos filhos de Deus.
-
*562 Se não fosse esta
certeza que nem sei donde me vem...
Brandos espaços, sonho
inenarrável a se apagar,
ou o retalhar do aclarar
nítido da bela aurora:
Ó escondidinho, agarra-me,
que te passo à porta!
O cabo dos cabos é que é
lindo, mas a paciência tem limites!
Senhora Nossa, olhai por
nós que somos pobres!
Judas Tadeu e Rita de
Cássia, dos Impossíveis, dai-me cova onde morra!
Menino Jesus da cabeça
fendida, fecha-me Tu os dissolutos olhos!
-
*563 Vede como se amam:
Pois se dão de coração
quebrado: Por gesto e voz inteiros dão-se, em puro amor movidos:
O mandamento novo tal
inspira: Em torno a eles se faz e se refaz cada instante a humanidade de um
Deus a nós
descido, amigo, irmão: A esse
novo amor os leva cada olhar: Desde milénios, a Terna Palavra ecoa,
quebrantando
e movendo seus imos mais
recônditos: Jamais estranhos, ou estrangeiros, mais que simples conhecidos ou
chegados,
são em verdade família uns
dos outros: Os que do alto voo se querendo, mansos s'encaminham, largo tempo
fora:
Só de amor s'alegrando,
fortes s'entregando: Vede como se amam! E dizei se tal amor não vale toda a
vida:
Em assim ser, firmíssima
s'expande, a amorável melodia da nocturna aventura do mortal:
De estrelas a estrelas se
exalçando, tal íntimo desígnio do lírico sentir:
Desde sempre assim afim, a
divina harmonia dos humanos corporiza-se, sente-se, palpa-se, comunga-se,
p'la sublime, mística
empatia que leva amor a mais e mais amor gerar: Porque sempre, sempre, p'lo
sucessivo tempo
é d'amor o modo humano do
humano ao humano cativar:
Humano que, se a Ele leal,
as quietas montanhas constrange, comove e arrebata!
-
*564 'Inda o anterior
canto:
Mesmo que fale todas as
línguas do universo, 'inda que por particular sabedoria do Espírito domine os
fundos meandros
da alma humana, mesmo que
me afogue a luz divina acaso achada em graça ou de Maria ou José, 'inda que
tudo vá dizer
em versos d'oiro fraternos
da Palavra do Filho revelados, se não houver em mim Amor, mas Amor - como Paulo
em imortal
hino, vivido em banquete
festivo, sempre escreveu - se não houver em mim Amor, mas Grande Amor, eu nada
sou.
Sonhos, loucuras, voos,
génio d'esforçados dias... Tudo passará, excepto a Cáritas. A tenuíssima
Cáritas!
N'Ela, de facto, irmãos de
irmãos nós somos.
-
*565 Diga eu agora
o nunc dimittis.
-
*566 Reze eu
a tão terna oração: Meu
Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno.
Levai as alminhas todas
para o Céu a começar p'las mais precisadas!
-
*567 Espírito Divino,
acolhe-me que, mísero
morro: Dia após dia, pouco a pouco, de mim a mim errante: Pó, alento e
liberdade,
dói-me não dizer toda a
alegria! Amiga, levo, como de sinete gravada ao coração a imagem truculenta
da réstia de cor do teu
olhar, ou o teu olhar mesmo, inundando felicidade: Devolve-me, em enlevo
bastante,
esse breve reflexo desse
mar: Nadando nele, nele vogando, o grande mar, sumo-me em estremecimentos
intérminos.
Estranho, mas solidário,
entre humanos comovo-me de indecisos sorrisos: Desses frémitos, de todo
anónimo,
recolho quanto falta a meu
deslumbramento. Afã de amar, interminamente. Vou a além - que além é perto.
De lá vos escreverei,
noticiando do eclodir silente, e alcançarei ajudar a multiplicar vossas comuns,
banais palavras.
-
*568 Tanto me machucaram
minh'alma as feridas vivas!
Tantos infernos tive que
sofrer! Que agora, assumpto em mi, mal sei dizer dos atropelos a'o eu nos
golpes certos
sobre mi' cometidos! Salvo,
por obra ou graça de Maria, A da Fátima Senhora, incréus me olham os olhos dos
que,
antes, eram os do puro
desdém ao coitado ali jazido, olhos cegos de verem sem ver os milagres vivos
deste tempo
apocalíptico. Mil bocas
mudas jazem, sem palavras que ecoem dos vulgares assassínios, em silêncios
cúmplices
de crimes contra humanidade
perpetrados. Oswiecins tive em meu caminho, mas, alegre da alegria imorredoura,
repito para vós, homens
deste nosso tempo crítico, que, enquanto aqui ante os novíssimos,
espero e creio e amo,
e que de Mãe Maria a graça
é
de dizer-me
outro
a poesia!
-
*569 A Mãe Maria,
Senhora Nossa, Rainha da
Lusitânia,
na solenidade da Sua
Conceição Imaculada:
Ó Maria Imaculada,
estrela da manhã, que dissipas as trevas da noite:
Abre-nos caminho que leve a
bom lugar.
Le coeur trop plein em Ti, Te olho porque me olhas:
O nada que tenho a dizer-Te
o Teu eloquente olhar em mim o cala:
Me baste só todo esse
tanto, de Ti suspenso. Pára e ama!
Pára de vez, e ama de
verdade, flébil alma de meu coração!
-
*570 Credo:
Há Um Só Deus, Pai Mãe Dos Céus
Da Terra De Todas As Coisas Visíveis E Invisíveis Do Inteiro
Universo.
A Ele, A Ela, Que Em Manto
Estrelejado De Vastidão Todos Acolhe, O Poder, A Honra E A Glória P'los
Intérminos
Milénios!
O, A, Que De Alto A Fundo,
Norte A Sul, Largo A Alto, Levante A Poente, Tudo Habita Da Plena Totalidade, A
Que
Nada Falta.
O, A, Em Quem Amamos,
Somo-Nos, Movemo-Nos, Como Sombras Vamos: Até A 'Í, Pra Sempre, Contritos
Regressarmos.
-
*571 Lausperene:
Aos olhos da Fé aí estás
Tu, Inteiro em corpo inteiro.
Revejo-Te igual a quando
percorrias, mais os teus,
as iluminadas margens da
terrestre e celeste Galileia.
-
*572 Louvor ao
Santíssimo:
A plenitude está em Ti. Ave,
Spes Unica! Fruto do trabalho, do Espírito e das suavíssimas entranhas
de Maria, A sempre Virgem e
sempre Mãe. Agnus Dei, Oferta Maior, da infinita dor redentora,
dor de todas as humanas
dores, que as mais carregadas manchas branqueias.
A Ti atrai, amorosamente,
todos os errantes filhos da Terra e os plenifica no júbilo da Tua Paz.
Pra torná-los verdadeiros
filhos do Céu. Todos aqueles que, por humana condição, connosco são
nossos irmãos, filhos todos
de Único Pai e Única Mãe.
A rodos nos dês da
abundante consolação!
-
*573 Jesus,
inspecciona-me a que ande sempre em Tua luz:
A que volte de novo a comportar-me
como menino:
A que nada perca da graça
que me dás:
A que respire sempre louvor
a oração em que inteiro brota o falar do meu coração:
A que cada palpitação do
meu sentir Te seja aprazível oblação:
A que me dê à vida de cada
despontar do sol e me envolva da bondade de cada outro alvorecer:
A que toda a tarde Te
acompanhe na Tua paixão, que a humanos redime:
A que toda a noite repouse
na amizade do Teu ombro:
A que em mim vibre, a todo
instante, a inteireza do Teu amor:
A que nesse amor prolongue,
sempre, o louco curso de meus dias:
A que a Ti regresse para o
sempre gozoso tempo da Tua sem fim Bem-Aventurança:
A que, em Ti, viva. A que,
em Ti, morra: Amen!
-
*574 Amar o grande mar:
Amar-te deveras, verde mar!
Amar-te, do mor amor, ó mar maior!
-
*575 Alba plena:
Maria, dá-me teu rosário,
pra que alcance subir por ele a pulso a Escadinha das Rosas.
Sê minha boa mãe e alcança
que eu cale quanto não Te louve.
Que não canse de mostrar-me
grato por tudo que me dás e que me é meu tudo:
A alegria de filho Teu, com
O Teu Filho, e José, e O Pai, e O Santo 'Spríto.
Por acréscimo, Maria, Mãe
bondosa, desculpa tanto asnear.
Deixa o bobo mafarrico e
aramista dar em minha não-vida despropositadas pultricas.
Não é ele um acabado parvo
chapado? Pudesses Tu também desculpar seu desnorte!
Só com a ajuda do humano
penitente, Te é dado fazer com que o tal dos embustes a longes suma.
Mas prende-me todo a Teu
olhar sem sombra, ó Imaculada e benigna Mãe, vida, doçura, esperança minha
caríssima!
Pois estar conTigo é viver
do mesmo Deus.
-
*576 Porque na Fé de
avós
educados e encaminhados, na
Fé renascemos, até ao abraço
do Pai, a comunhão do
Filho, o amor do Espírito Santo.
Por Maria, Estrela, e Guia.
Amen! Aleluia!
-
*577 Ancestral patriarca
José,
Forte dos Pobres, Farol do
Novo Mundo,
abri-nos de par em par as
portas dum claro dia!
-
*578 Meu Menino Jesus,
Salvador do Mundo, deixa-me
brincar conTigo,
e ensina-me a ajudar-Te a
livrar imos perdidos.
-
*579 Meu Sant'Antoninho
das Moças,
move-lhes seus verdes
devaneios cordiais,
a que me dêem da fresca
água do barro de suas bilhas
e me matem de vez minha
antiquíssima sede.
-
*580 Senhora das Sete
Espadas de Dor:
Branca lâmina haveria de
trespassar-Te - profetizou Simeão - pois o Menino estava ali como sinal de
contradição: A-M.
Longas léguas fugiste p'lo
deserto, com José e o Menino e Teu burrinho, pra o Egipto de Teu desterro, Mãe
Saudade: A-M.
Teu Filho ensinava na Casa
do Pai e Tu buscáva-Lo, incansável, por todo o lado, Mãe da Terra: A-M.
Acompanha-Lo na via
dolorosa, incapaz de suavizar, sob Sagrado Madeiro, as dores de Seu Santo
Ombro: A-M.
A lança que tangeu a corda
última do Seu bondoso lado, varou também Tuas entranhas de Misericórdia: A-M.
Ele tombou sobre Teu regaço
e Tu, em lágrimas Te consumiste e toda Te condoías, ó Mãe Ternura: A-M.
Sobre frígida pedra tombou
com peso e, em amargor, nem se T'indicia a ante-luz da Ressurreição: A-M.
-
*581 Repita eu também
a angélica prece:
Trindade Santíssima, P,
F, E S...
Em nome do Pai, Iahweh, do
Filho, Jesu, do Espírito Santo, Paráclito, por Maria, Estrela e Guia! Amen!
-
*582 Fogoso e Santo
'Sp'rito,
Esposo de Maria Santíssima
e Nosso Consolador, tomai-nos, a que nada nos falte.
-
*583 À vossa protecção
nos acolhemos, Santa Mãe de Deus:
Reze eu à Mãe.
-
*584 Diga, a que
desperte,
a portuguesinha oração:
Jesus, Maria, José!
Alumiai-nos! Socorrei-nos! Salvai-nos!
-
*585 Jesus, meu bom
amigo,
estais comigo.
Seja eu também conTigo!
-
*586 Coração de Maria,
íntimo a mim,
fazei-me a mim íntimo a Ti.
-
*587 Obrigado por mais
um dia,
Senhor meu Deus,
Anjo meu da minha guarda,
sempre Virgem Mãe Maria!
-
*588 Fecha-se o Livro,
solta-se o Louvor:
Plena é a Terra de Tuas
maravilhas, Santo, Omnipotente e Bom Senhor! Hossana nas Alturas!
Criaturas aladas, louvai
vosso Senhor!
Névoas, neblinas, regatos e
ribeiras, louvai o Senhor!
Anjos e meninos, louvai e
bendizei o Senhor!
Santos e Mártires do
Senhor, louvai eternamente o Senhor!
Irmãos sofridos, louvai
constantemente o Senhor!
Porque imensamente
duradoura é a Sua Misericórdia!
Poetas, aedos, bailarinos e
músicos, cantai as minuciosas belezas do Senhor!
Seja desmesuradamente longo
o saltério do nosso Louvor dos Seus Prodígios!
Arquitectos, artistas,
dramaturgos, cinéfilos, informáticos, jornalistas bendizei o Senhor!
Urzes e giestas e estevas e
tílias e lilases, fremi da apofântica alegria da grave presença do Senhor!
Aragens, brisas, fogueiras,
aclamai a plenitude do Senhor!
Ventos, raios, tempestades,
gritai o Senhor!
Répteis, peixes, mamíferos,
batráquios e animais domésticos, alimárias todas, bendizei o Nome do Senhor!
Luz da manhã, aclama o Teu
Senhor!
Pedras e terras, explodi de
santo Louvor ao Santíssimo Senhor!
Noite da solidão, cale no
teu fundo coração o Louvor do Teu Senhor!
Sono e vigília abriguem sob
benévolo manto os humanos ânimos dos que o Senhor ama,
pra que, com correspondente
amor, louvem, bendigam e exaltem Seu Senhor!
Cansaço, fadiga, stress e
exaustão nos entreguem mansos no Senhor.
Assim em nós brote Seu
justo Louvor!
Flores, verduras e
florestas, mares e nuvens, esplendei do Senhor. Seja eterno, em vós, Seu doce
Louvor!
Das alegrias e dos sorrisos
perpasse a graça imensa de quem louva e habita Seu Senhor!
Poderes, Bondade, Hostes
d'Anjos, Arcanjos, Querubins, Serafins acrescei, hora a hora, a Glória do Único
Senhor!
Assim aumente o Coro do
Louvor d'AQUELE QUE É.
Luzeiros, astros, sóis,
estrelas e claridades anunciai por todo o lado a infinitude da Bondade do
Senhor!
Seja essa vossa eloquente
expressão grato louvor ao Providente Senhor!
Jesua, abraça teu povo na
paz! Encaminha-o, passo a passo, na senda do Pai!
Maria, Mãe Bondosa, guarda
teu povo no Coração do Filho, que é também Coração do Teu Coração!
Na plenitude consoladora do
Espírito de Amor, pra todo o sempre, Amen!
Joséph solidário, defende a
Tua Igreja, Madre e Mestra, Amiga de Maria, e fortalece-a para as tarefas
pacificadoras!
Seja o Altíssimo Senhor
Notícia Nova de cada nova, alta antemanhã! Novidade absoluta do inteiro Reino
de Amor!
Miriam, Esplendente Serva
Eleita de Iahweh, Glória de Israel, Honra do nosso povo,
Porta da Porta do Céu, Mãe
da Terra da Paz!
Abriga-nos, pois sempre
tens, em nós, Teu Puro e Claro Olhar!
Segurança de tuas portas,
Jerusalém! Rochedo de nossa Salvação, defende e nutre teu povo na paz,
Abscôndito Senhor.
Que em Teu só Nome
depositou confiança! Tropeços, ciladas, embustes, venenos não temereis,
pois o vosso auxílio vem do
Nome do Senhor, O a Quem ventos e mares dóceis obedecem!
Que fez os Céus e a Terra!
Ele, em Quem nossa vida não acaba, antes se transmuda e se prolonga sem fim,
nEle, o Vivente!
Como Tu, perdoe eu
infinitas vezes, Senhor, pra que Tu me perdoes também.
Como Tu, ame eu com todas
minhas fibras d'alma, com todo meu entendimento e força, de inteiro coração,
pra que Tu sejas constante
Amor meu e meu Refúgio!
Como Tu, desarme ódios e
mentiras, com gestos de perdão,
pra que me torne,
verdadeira e libérrimamente, filho de Deus.
Abrace-Te em Tua bondade! A
que tornes, repleto, em Ti, meu coração, infinitamente mínima porção
de Teu Coração Aberto.
Pois, também Tu por mim
morresTe em cruz, Jesus!
A exemplo de Francisco, o
Irmão, onde houver peso leve a leveza incólume do Teu sorriso,
vezes sem conta violentado,
ternura nata de Teus Imos golpeados!
A que do Orbe Todo se
surpreenda Tua Face, Esplendor Admirável de Tua Verdade, ó Pantócrator!
Beleza iluminada que sacia
todas as humanas fomes, mão firmíssima, que ampara nas humanas hesitações!
Único Porto Seguro dos
atribulados.
A que de todas as provas
resulte mais forte, no peregrino, o Amor por Ti, Deus e Amor!
A que eu não esqueça nunca
o pobre Lázaro... Tenha abertas para ele, de par em par, as portas da choupana!
A que Tu, Senhor, tenhas
igual compaixão de mim, e assim alcance
Tuas Moradas Benévolas, do
Pão, do Leite e do Mel!
Jesu, Filho de Davi, reencontra
Teus cordeiros desnorteados!
Traz a Teu Redil mesmo
aqueles que magoam Teu Santo Rosto, e desatinam, Boníssimo Pastor!
Teu entranhado Amor se dê
em pródiga benção, acolhedora até daqueles
que se esquivam da Ternura
Amiga do Teu Ombro!
Jesus mansíssimo, humílimo
de coração, fazei meu coração semelhante ao Vosso!
Pois ligeiro é Teu jugo,
como algodão em rama Tua carga, e pacientíssima,
até aos últimos limites dos
milésimos de segundo da nossa respiração, Tua bondosa expectativa em relação a
nós!
Que por nada deste mundo te
cambiemos, Amoroso Deus!
A Teus pés entreguemos as
angústias e alegrias, as esperanças e as desesperanças deste nosso mundo
dividido!
A Ti deixemos as inteiras
mágoas e injustiças, as árduas tribulações dos filhos Teus!
Dá, a cada um, quanto mais
lhe falte, pois sabes sempre prover a seu melhor! Recolhamo-nos a Teus Átrios
Santos,
Senhor Deus do Universo,
onde Teus Anjos Musicantes destilam excelsos sons e mirra e aloés!
Lá saciados da Palavra da
Vida, juntos entoemos 'ternamente novos hinos de Louvor!
A que, p'los intérminos
milénios, nos cubra e salve Tua Benção!
A que, Lá, transborde o
Vaso do Nosso Coração, Beneficente Magnitude de Teu Amor!
A que, pra todo o sempre,
sobre nós derrames Teu Favor!
Deus de Nossos Pais e de
Nossos Avós, todas as gerações Te louvarão!
Jamais esqueceremos: Que,
nos amaros transes, nos defendeste sempre:
Que nos acompanhaste na
fuga do Egipto da vida:
Que nos saciaste na Terra
da Promessa:
Que nos endireitaste os
ocos ossos:
Que exalçaste, em nós, Tua
Santíssima Face:
Que nunca nos deixaste
confundidos ou gorados!
Um Obrigado eterno a Ti,
Bondade Imperecível!
Um Obrigado eterno a Ti,
Amor-Sem-Fim e Fim-dos-Fins!
-
*589 Amo o Coração
Imaculado de Maria e espero na Sua protecção.
Que mais dizer-Te ou rezar-Te
ainda a Teus pés, Companheira e Mãe? Que sob Teu Infinito Manto de Bondade
acolhas hoje e sempre teus
amados filhos, agora em ódios transviados: Que eles queiram, amem e vivam
Tua dulcíssima paz: E
proclamem com júbilo imenso a mesma Melhor Paz, a de Teu Filho Único, Teu
Coração!
Imaculado Coração de Maria,
venha a nós o Vosso Reino de Amor!
(O fruto do amor é o
serviço, o fruto do serviço é a paz...)
-
-
X) cantos de
intervenção
*590 Milénio novo, sujo
mundo:
Duros americanos cow boys,
no pragmático afã de meter "malvados" na ordem, decidem
acabar de escalavrar o que
ficou do caos do último, balcânico cataclismo profusamente noticiado.
Pra quando será o eles
substituírem o gatilho de acertar errado p'la ternura amiga do coração nas
mãos?
A fim de reporem os
caminhos interrompidos por pontes afundadas.
-
*591 A distribuição do
pão:
Bem se afadigam lavradores
ao sol escaldante lançando no ventre da ávida terra a pequenina semente,
que, uma vez morta,
vivifica. Bem se dão, incansáveis, as ceifeiras, com suas foices, a golpes
certos, à seara.
Bem trabalham na eira os
malhadores, destrinçando da palha as loiras espigas e das loiras espigas o
fino,
terno grão. Bem se movem o
moleiro e do moinho as mós, que esmagam o que será fina farinha.
Bem se afanam a desoras
atravessando e aclarando a noite padeiros, que já amassada ao lume
levam a última fornada. Bem
se inquietam motoristas e seus ajudantes, que, nas carrinhas,
em largos cestos,
transportam a alegre benção do começo de cada nova, alta antemanhã.
Bem cuidam comerciantes,
que abrem bem cedo as portas para dar, por sujo dinheiro, o esperado pão.
Bem se ocupam eleitos
governantes planificando dos orçamentos da geral distribuição comum.
Nós, cristãos, rezamos a Um
Pai, único a todos, para o pão nosso quotidiano nos dar hoje.
Porém no planeta da fome
distribuem-se armas, e falta a muitos o esforçado pão, que ao Pai pedimos.
Homem de boa vontade, olha,
olha o pão. Quando o partires, ainda que penses que ninguém te ouve, diz
obrigado!
Talvez que, enfim, do
humano coração magoado, nasça prenhe grãozinho de cereal que se multiplique.
E chegue às bocas ávidas
dos irmãos que desesperam, o pão comungado, o tão gostoso pão da paz,
o pão do companheirismo, o
pão da ampla mesa, o pão do amor abundante da inalterável e recôndita alegria.
-
*592 Nova poética
própria:
É do sentimento do
tempo, como escrevia Giuseppe Ungaretti, que acompanhamos
a inquieta palpitação do
humano coração, e daí registamos lapidarmente poética notícia.
-
*593 Zeca:
Em Setúbal, na tarde lenta,
recostavas-te p'los bancos corridos da CGD, à Luísa Todi, esperando caísse
na tua magra conta alguma
pensão, ou tença, das usualmente concedidas a famintos de paz. Tinhas o ar
simples, e acossado, de
algum anónimo kosovar recém-chegado a exílio, a quem são dadas roupas lavadas,
sabonetes, pasta de dentes,
toalhas e alguns desodorizantes. Mas fizeras alto soar teu grito desperto de
clarim:
Um rio de sangue, do
peito aberto, sai! Pague-se-te
já agora a conta certa: Se ao fim caíste, faça-se-te
em teu talhão florescer as
vivas flores vermelhas da madrugada, vulgo cravos... Pra que, pra sempre,
nelas vibre a canção
somente nossa da mesmíssima chã certeza, que aqui viveste e hoje és.
-
*594 Cada vez mais perto
do fim,
sem professores e sem mim.
-
*595 Feliz gente: Com
duas realidades. E eu sem ter nenhuma:
Então, Zé, em que ficamos?
Em que planeta? Certo, incerto, melhor, pior,
quejando o habitado na
sequência dos dias repetidos do eléctrico. Em que chão,
se te deslocam supostamente
os pés? O caso é simples: Cá estamos. Mas não somos daqui. Onde vamos?
Isso não sabemos de certeza
certa. A que viemos? Talvez a entendermo-nos de francas palavras.
O que conta? Naturalmente a
inteira verdade. Boutade ou angústia tua, de tua poesia concluo: Nem terra nem
céu:
Nem terra, porque perdidos
no grande encontramento: Nem céu, porque cegos nos vemos para a terna
tenuidade.
Nosso só devera ser teu
fundo grito. E contudo descremos, descremos de tudo e mesmo da mais elementar
e crua das verdades. Que
mais dizer? Porque vivos somos, enquanto e não, inteligentemente cuidemos.
-
*596 Viver estranho e
isolado num mundo que se pretendia habitado e harmonioso é viver suicidado,
viver morto vivo, num
mundo de nado-mortos:
Os jornais não dizem: O
Reino de Deus também na China: Nas prisões de que não
se sabe onde: Nas anónimas
gentes das aldeias de desnecessário policiamento:
No cansaço dos que não
querem armas: Nos que suam seu pão, parco sem palavras. No acossado nidificar
do amor. Mas a face do
Cristo volta-se de imensa para todos os lados, à envolvente bancada do circo
universal.
-
*597 Vitor Baptista:
Foste mesmo o maior, na
voragem dos dias. O coveiro te olhou sublime, autêntico e camarada.
Sob a cinzenta farda, sob o
decente nó de gravata, ao padre-nosso murmurado do cura, te reconheceu
talqualmente dentro, como
és, seu e meu irmão. Lançou-te então a primeira pazada. Tiveste, uma vez, a tua
mãe.
Quase vinda a manhã, por
Sesimbra do sol, o Jaguar estacionavas ao pé do bar a fim de beberes com a
malta
dos derradeiros copos.
Vitória Futebol Clube, Lisboa e Benfica, Desportivo Estrelas do Faralhão, quiçá
Alguidares
de Cá, concitou-se maralha
à tua volta, em feliz sociedade. Logo os jornais venderam uns fartos números, à
custa
do teu nome em caixa alta e
da tua fotografia em primeira página, aquela em que estás atirando duro para o
golo.
Tinhas achado de vez o teu
adereço de orelha. Olha, olha, como louco varrido, quanto baste polido, em
Amora ou
em Setúbal ou no Montijo,
galgas alto sobre teu cavalo, tão inteiro deus Apolo, p'lo estádio fora e p'la
eternidade além.
-
*598 Questão que tenho,
de mim a mim, comigo mesmo, Portugal!
Ilusão madrasta que me
mata, condição em que me morres meu lugar.
Aproximaste de mim a irreal
cadeira, a que me acomodasse.
Diluíste, assassinaste,
monotonizaste do mais variegado cambiante de meu dizer o rigor. Fiquei de pé,
e, mudo como sempre,
reencetei a fuga, p'lo inelutável caminho. Era fado reencontrá-lo e tropeçar
nele
o remorso de teu corpo
irmão jactado ali à vala. Do deserto tóxico, da infestação e do desastre,
clareava
teimosamente, dos
domésticos microclimas a fina tonalidade da atlântica ou quási mediterrânica
feiticeira luz.
Uma e mil e uma vezes fiquei
ébrio desse quê. Uma e mil e uma vezes ficarei de novo ébrio, literalmente
ébrio.
Até que, poalha cremada,
que desde já vou sendo, todo na dita luz me dissolva e a algures vá.
-
*599 Capazes de firmeza,
sem cair no ódio,
e de compreensão, sem
cair na conivência com
o mal:
Dom Helder, deixaste
esta selva ou mundo cão,
império dos jagunços do
cifrão,
e foste gozar férias a O
Alto:
Que tais achaste por aí
teus mui amados pobres?
-
*600 A Xanana:
Verdadeiro me abraça teu
coração inteiro, Avô Crocodilo, Loro sa'e, Timor.
-
*601 Quando chegará o
dia da tua festa fraternal?
Essa aurora em que te ergas
dançando, jovem negra? Quando, de teus íntimos ritmos,
celebrarás o perdão do amor
com lágrimas de alegria? A humanidade te abrace, alma irmã.
Do escuro que 'inda dura,
aconteça realçar-se teu sonho, tanto tempo adiado! Ao calor do novo sol
te rebrilhe, de esplendor,
a escura tez! E em festa te envolvas e em pó de veraz luz à clara paz ascendas.
De vez te reencontres, e em
novo amor exultes! Alma angolana, enorme coração de África,
tão portuguesa alma gémea,
terra encantada e mágica, mártir pátria dos confins!
-
*602 Hoje é o tempo
que nós humanos quisermos.
-
*603 Fale português o
Oriente da Vida:
Maravilha fatal da nossa
idade, ó Sebastião:
Que irrompas da bruma
cavalgando:
A flamejante espada, em
mão, e, em tua armadura, pétrea e brônzea rosa do deserto,
sagrado da reviva Saudade,
te reergas: E os corações, dos teus, à peleja do Espírito, arrebates!
Conquistem-se-te enfim, a
tua voz rendidas, das praças as hostes do inteiro orbe, a nova hora tidas:
A teu largo ânimo se dêem,
e se abriguem:
E a ti ascendam, submetidas
d'alma, mais aéreas do que volantes bandeiras!
E cada cavaleiro teu
firmemente se anime, movido da sobre-humana ternura dócil de teu mando!
E, a teu manso fôlego,
heróico de benignidade, eclodindo da névoa, qual nova matéria,
o Império último do
definitivo início espiritual do Amor se indicie:
Final Fim Sem Fim:
Pacífico, benévolo
estremecer, da universal, preclaríssima plenitude!
-
*604 Meu país
desgraçado!
E, no entanto, há sol em
todo o lado!
Meu tão doce país!
Entretanto, vil tristeza
te rói a gratuita alegria,
minando-te a raiz.
Meu tão alto país!
Mas apagada tristura,
que imprecisamente nomeaste
de saüdade,
te deixa nesta feira
cabisbaixa,
das ilusões mesquinhas,
sanguinárias,
vãs vaidades que amarguram
a graça singela,
de sem óbvias razões seres
feliz!
-
*605 Onde o verso
escondido de Deus,
amigo e poeta Miguel
Teixeira?
É como se eu ou tu nos
perguntássemos
se, vivos, mortos 'stamos
ou se vivos só depois de
mortos...
Metafísicas subtilezas!
-
*606 Nun'Álvares,
move já teu destro firme
braço
e em força em mão límpida e
erecta a espada da vitória.
A que se realize, 'a sempre
livre, o sacrossanto Portugal!
-
*607 Cada pedra sobre
cada pedra:
Acaso ressurgiu algum Ceausescu, agora e